As Sombras de Prahv, Parte 1
Nota da Autora: Ei, aqui é a Jenna. Faremos outro Guia do Planinauta na próxima semana. Hoje, queríamos compartilhar a ambientação da nova Ravnica. Uma oficial Boros investiga uma série de assassinatos ligados a uma revolta Golgari que aconteceu anos atrás. A história culmina com um card de prévia na parte 2. Obrigado pela leitura!
"Bruxas e ladrões", pensou Branko enquanto estudava a fila de prisioneiros Golgari.
Ele apertou o cabo de seu bastão de choque. Queria gritar, derrubar as paredes do Complexo de Detenção Azorius e fugir para a luz do sol. Queria estar longe deles e de seus murmúrios estranhos e olhares selvagens.
"Mantenha seu bastão de fora", sussurrou ao passar por Gebris, um guarda novato ainda na adolescência. Gebris tinha uma opinião elevada demais sobre si mesmo e era maldoso mesmo em seus dias bons.
"Eu farei meu trabalho, você faça o seu", resmungou Gebris, o que não fazia sentido, pois tinham o mesmo trabalho.
Branko queria lhe dar umas palmadas para que recuperasse o juízo. Os Prendedores Azorius haviam invadido o território Golgari no início daquela noite. Mas, uma vez dentro do Complexo de Detenção, alguns Golgari dominaram seus captores e ganharam o controle do primeiro andar. Talvez mais andares já tivessem sido perdidos. Branko não sabia. Estava preso aqui embaixo, no porão.

"Bruxas e ladrões", murmurou Branko novamente enquanto caminhava pelo corredor, a apenas alguns centímetros de homens ansiosos pela chance de estripá-lo.
Eles estavam trancados no corredor sufocante há horas. Até agora, os prisioneiros haviam sido contidos, mas estavam ficando inquietos. Ajoelhar-se com as mãos amarradas nas costas seria difícil para qualquer um. À medida que as horas passavam, Branko sentia pena deles. Mas o resto dos guardas, como Gebris, estavam mais agitados do que compreensivos.
A maioria dos prisioneiros eram humanos sujos com pele de aparência frágil que provavelmente nunca vira o sol. Alguns dos humanos maiores estavam acorrentados com arreios de madeira e algemas brilhantes. O mais assustador de tudo era uma górgone emaciada que fora amarrada, amordaçada e vendada. Seu cabelo estava solto, e aquelas gavinhas contorcidas faziam a pele de Branko arrepiar. Até seus compatriotas se afastavam dela. Ela se ajoelhava sozinha perto da porta barricada, parecendo estranhamente majestosa apesar das circunstâncias sombrias.
Observando-a, Branko percebeu que tinha de encarar a verdade. Havia guardas de menos para prisioneiros demais.
"Rastejador da podridão", gritou Gebris de repente. Ele se agigantou sobre um homem de aparência doentia, com bochechas encovadas e as tatuagens desbotadas do clã de um ex-Gruul. O homem nada disse, apenas retribuiu o olhar com ódio em seus olhos avermelhados.
"Ora, isso é que é cara de rato", Gebris provocou. "Talvez tenham te jogado na privada ao nascer? Direto para os braços da Mamãe Golgari?"
Branko desejava que houvesse um oficial superior com eles. Mas durante o caos inicial após a revolta dos Golgari, seus superiores enviaram o restante dos prisioneiros para o porão. Ordenaram aos guardas que não se movessem até serem rendidos e selaram a saída com selos de barricada.

Ninguém entra. Ninguém sai. Não até que seus superiores assim o decidissem.
"Você ama tanto a imundície, que tal isto?" Gebris usou a ponta de sua bota e a empurrou contra o rosto do homem, batendo sua cabeça contra a parede e mantendo-a ali. Por todo o corredor, os Golgari começaram a sibilar. O som aumentou para um rosnado animalesco que reverberou no teto de azulejos.
"Você será denunciado", alertou Branko a Gebris.
"E daí?", desdenhou Gebris. Mas ele abaixou a perna. O lábio do homem estava sangrando, e ele não olhou para cima novamente. O sibilado parou, mas a raiva remanescente dos prisioneiros parecia quase tangível, tão acre como se houvesse fumaça suspensa no ar.
"Acalme-se", sussurrou Branko para Gebris. Branko colocou a mão no ombro do homem mais baixo, mas Gebris a sacudiu irritado.
Desde que se conheceram, há alguns meses, Gebris sentiu uma antipatia imediata por Branko, que tinha mais de dois metros de altura. Além de alto, Branko era tão largo e musculoso quanto um ferreiro. Ele sentia que era apenas o seu tamanho que mantinha a situação sob controle.
"Eu não pedi por isso!", esbravejou Gebris. "Os malditos planejaram isso."
"Quem, Zivan?", perguntou Branko. O Árbitro Zivan ordenara a Prisão em Massa, que fora alardeada como a limpeza definitiva dos Golgari.
"Não, seu idiota", Gebris retrucou. "Eles, os rastejadores da podridão. Eles deixaram que os prendêssemos, para que pudessem voltar e nos matar aqui."
Branko não respondeu. Não gostava de falar na frente dos prisioneiros. Podia sentir os olhos deles em suas costas, rastreando cada movimento seu.

"Vamos levá-los pelo pátio de exercícios", instou Gebris. "Podemos trancá-los nas celas do Bloco Sul."
Branko viu lógica nisso. Não havia saída pelo Bloco Sul, mas pelo menos os prisioneiros seriam contidos por algo resistente.
"E quanto à luz do sol?", perguntou Branko. Havia protocolos rígidos sobre o transporte de prisioneiros Golgari, e a exposição à luz solar era proibida a menos que os formulários apropriados tivessem sido aprovados.
"Eu não me importo com a luz do sol", gritou Gebris. Branko assentiu rapidamente em concordância — Gebris estava em um estado mental perigoso.
Depois de acordarem os prisioneiros, Branko esperou com o grupo principal dentro da porta no final do corredor. Ele enviou dois de cada vez pelo pátio ensolarado. Gebris os recebia no lado oposto. Eles haviam movido apenas metade do grupo quando o homem com o lábio sangrento chegou à frente da fila. Branko fez sinal para que ele saísse para a luz do sol, mas ele se recusou a se mexer.

Quando Branko estendeu a mão para ele, houve uma onda de movimento entre os Golgari restantes, que se levantaram em massa e o cercaram. Branko conseguia ver por cima da multidão, e dois prisioneiros estavam conduzindo a górgone em sua direção. Um dos prisioneiros se libertara de suas amarras e estava alcançando a venda da górgone. Eles iam usá-la como arma.
Encurralado por corpos, Branko não conseguia chegar à porta. Eles o chutavam, tentando quebrar seus joelhos. Uma indignação justa o dominou, e ele contra-atocou, batendo seus ossos delgados de pássaro contra as paredes, esmagando crânios com socos, quebrando espinhas sobre seu joelho maciço.
A górgone — agora livre de suas amarras — estava prestes a entrar na briga. Branko não gostava de lutar nesses espaços fechados. A menos que quisesse se tornar um bloco de granito, ele tinha que derrubá-la primeiro. Fechando os olhos, ele avançou contra a górgone. Ele prendeu suas mãos enormes nos ombros ossudos dela e lançou-se para a porta aberta, arrastando-a consigo.
O sol estava escaldante quando eles caíram no pátio arenoso. Branko caiu parcialmente sobre a górgone, mas conseguiu manter os olhos fechados. Ela sibilou palavras desconhecidas e arranhou seu rosto. Golpeando às cegas, ele esmagou o cotovelo contra ela repetidamente. O corpo dela ficou imóvel sob ele. Mas, quando começou a se levantar, dedos rasgaram sua orelha. Ele ouviu um som de rasgo e gritou de agonia. Branko rolou para longe da górgone, seus olhos se abrindo involuntariamente para o caos ao seu redor. Os prisioneiros corriam livremente pelo pátio. Eles haviam perdido o controle.
Seus olhos se voltaram para a górgone, que estava agachada no chão. A dor estava deixando Branko nauseado, e sua orelha parecia estar pendurada perto de seu pescoço. O mundo inclinou-se lateralmente enquanto uma luz carmesim pulsava ao redor dele. Branko sabia que estava prestes a desmaiar.
Ao lado dele, o sangue jorrava do lado da cabeça da górgone. A cabeça dela pendeu para o lado e uma luz bruxuleante a envolveu. As mãos de Branko cavaram a terra como se para manter o equilíbrio que já havia perdido.
Quando ele olhou para cima novamente, a marca de seu corpo na areia era tudo o que restava. A górgone havia sumido.

Era um caso simples: o décimo oitavo andar de um cortiço desabou, matando quatro pessoas, incluindo dois membros da família Lapt. O Sr. Lapt estava pedindo indenização.
O Árbitro Relov começou a mergulhar sua pena no tinteiro e depois pensou melhor. Ele releu o depoimento manuscrito do reclamante no final do Requerimento:
As tábuas de madeira do piso estavam macias há várias semanas. Acredito [sic] que havia um cano com vazamento. Falei com o proprietário sobre isso duas vezes, e ele não fez nada.
Acredito? Quanto mais Relov olhava para aquela palavra, mais irritado ficava. As primeiras dez páginas do Requerimento estavam em ordem. O Requerente citara os estatutos corretos e sua fundamentação jurídica era sólida. Não havia Invisíveis com que se preocupar — o proprietário era um senhor de cortiço sem guilda e sem conexões com o submundo que pudessem causar problemas para os Azorius em uma data posterior.
Relov considerou a pilha instável de documentos no canto de sua mesa. Bem, ele daria uma lição a esse homem. Aprenda a escrever, Sr. Lapt, e pare de desperdiçar meu precioso tempo. Com isso, ele deslizou o Requerimento para o fundo da pilha.
Relov voltou sua atenção para as outras pilhas de papelada em sua mesa. Ele gostava da meticulosidade da linguagem jurídica — assumindo que fosse bem feita — e a tarde passou agradavelmente. Relov aprovou uma multa para os detidos nas proximidades de um motim, mesmo que não pudesse ser provado que participaram. Em seguida, deu sua aprovação para uma nova estátua do Grão-Árbitro Leonos. Levara meses de discussão para concordar que ela seria colocada perto da entrada principal de Nova Prahv (mas não ao lado dela).

Ele acabara de terminar seus argumentos escritos contra o financiamento de uma iniciativa anticulto quando uma escrivã apareceu à porta de seu espaçoso escritório com outra pilha de documentos. O trabalho de um Árbitro nunca terminava...
"Há um ruído de chocalho na ventilação que está me distraindo", disse ele à jovem. "Você pode verificar isso?"
"Posso enviar uma solicitação para um Comissário", ela respondeu lentamente. Não era trabalho de uma escrivã preencher o Formulário de Solicitação, mas eles eram tediosos, e uma escrivã certamente teria mais tempo livre do que um Árbitro.
"Agradeço sua gentileza", disse ele com um sorriso cativante.
"Sim, senhor", disse ela. Ela colocou duas cartas seladas em sua mesa. "Estas chegaram por mensageiro."
O sorriso dele azedou. Ele poderia repreendê-la por não apresentá-las imediatamente, mas decidiu deixar passar. Ele precisava daquele Comissário, afinal. Assinou o Documento de Recebimento e ela desapareceu nos corredores labirínticos da guilda Azorius.
A primeira carta era um Requerimento urgente para Uso Imediato de um executor Orzhov, que queria acesso a esferas de detenção. O pedido violava doze estatutos, mas quando Relov viu o número rosa pálido impresso na parte inferior, assinou sem hesitação. Ele passou o polegar sobre o número, borrando a quantia que logo seria depositada em sua conta no Banco Vizkopa.

A segunda carta era de Javy, uma investigadora Boros e uma de suas amigas mais antigas. Anos atrás, ele liderara um empreendimento conjunto com os Boros conhecido como Iniciativa de Segurança. Agora extinta, ela resgatava crianças dos Gruul ou das prisões de indigentes e as colocava nas academias Azorius ou Boros. Javy fora sua apoiadora mais fervorosa. Naqueles dias, eles eram jovens, idealistas e mais do que um pouco tolos sobre a possibilidade de mudar as coisas para melhor.
Relov tornara-se mais astuto ao longo dos anos, mas Javy nunca perdera seu idealismo. Então, há um ano, Javy e seu parceiro foram atacados em um armazém no Distrito da Fundição. Ambos foram severamente espancados, e apenas Javy sobreviveu. Relov ouvira os boatos — supostamente os Orzhov queriam silenciá-los — mas não falara com ela desde o incidente. Ele quebrou o lacre de cera. Um endereço estava anotado no topo da página, e então seu garrancho familiar:
Qual é o ponto culminante de uma vida de palavras? Baldes de sangue. Venha agora. #linebreak —Javy

























































