Retorno a Ravnica

Histórias em Português

As Sombras de Prahv, Parte 1

Nota da Autora: Ei, aqui é a Jenna. Faremos outro Guia do Planinauta na próxima semana. Hoje, queríamos compartilhar a ambientação da nova Ravnica. Uma oficial Boros investiga uma série de assassinatos ligados a uma revolta Golgari que aconteceu anos atrás. A história culmina com um card de prévia na parte 2. Obrigado pela leitura!

"Bruxas e ladrões", pensou Branko enquanto estudava a fila de prisioneiros Golgari.

Ele apertou o cabo de seu bastão de choque. Queria gritar, derrubar as paredes do Complexo de Detenção Azorius e fugir para a luz do sol. Queria estar longe deles e de seus murmúrios estranhos e olhares selvagens.

"Mantenha seu bastão de fora", sussurrou ao passar por Gebris, um guarda novato ainda na adolescência. Gebris tinha uma opinião elevada demais sobre si mesmo e era maldoso mesmo em seus dias bons.

"Eu farei meu trabalho, você faça o seu", resmungou Gebris, o que não fazia sentido, pois tinham o mesmo trabalho.

Branko queria lhe dar umas palmadas para que recuperasse o juízo. Os Prendedores Azorius haviam invadido o território Golgari no início daquela noite. Mas, uma vez dentro do Complexo de Detenção, alguns Golgari dominaram seus captores e ganharam o controle do primeiro andar. Talvez mais andares já tivessem sido perdidos. Branko não sabia. Estava preso aqui embaixo, no porão.

Arte de Greg Staples
Arte de Greg Staples

"Bruxas e ladrões", murmurou Branko novamente enquanto caminhava pelo corredor, a apenas alguns centímetros de homens ansiosos pela chance de estripá-lo.

Eles estavam trancados no corredor sufocante há horas. Até agora, os prisioneiros haviam sido contidos, mas estavam ficando inquietos. Ajoelhar-se com as mãos amarradas nas costas seria difícil para qualquer um. À medida que as horas passavam, Branko sentia pena deles. Mas o resto dos guardas, como Gebris, estavam mais agitados do que compreensivos.

A maioria dos prisioneiros eram humanos sujos com pele de aparência frágil que provavelmente nunca vira o sol. Alguns dos humanos maiores estavam acorrentados com arreios de madeira e algemas brilhantes. O mais assustador de tudo era uma górgone emaciada que fora amarrada, amordaçada e vendada. Seu cabelo estava solto, e aquelas gavinhas contorcidas faziam a pele de Branko arrepiar. Até seus compatriotas se afastavam dela. Ela se ajoelhava sozinha perto da porta barricada, parecendo estranhamente majestosa apesar das circunstâncias sombrias.

Observando-a, Branko percebeu que tinha de encarar a verdade. Havia guardas de menos para prisioneiros demais.

"Rastejador da podridão", gritou Gebris de repente. Ele se agigantou sobre um homem de aparência doentia, com bochechas encovadas e as tatuagens desbotadas do clã de um ex-Gruul. O homem nada disse, apenas retribuiu o olhar com ódio em seus olhos avermelhados.

"Ora, isso é que é cara de rato", Gebris provocou. "Talvez tenham te jogado na privada ao nascer? Direto para os braços da Mamãe Golgari?"

Branko desejava que houvesse um oficial superior com eles. Mas durante o caos inicial após a revolta dos Golgari, seus superiores enviaram o restante dos prisioneiros para o porão. Ordenaram aos guardas que não se movessem até serem rendidos e selaram a saída com selos de barricada.

Arte de Tyler Jacobson
Arte de Tyler Jacobson

Ninguém entra. Ninguém sai. Não até que seus superiores assim o decidissem.

"Você ama tanto a imundície, que tal isto?" Gebris usou a ponta de sua bota e a empurrou contra o rosto do homem, batendo sua cabeça contra a parede e mantendo-a ali. Por todo o corredor, os Golgari começaram a sibilar. O som aumentou para um rosnado animalesco que reverberou no teto de azulejos.

"Você será denunciado", alertou Branko a Gebris.

"E daí?", desdenhou Gebris. Mas ele abaixou a perna. O lábio do homem estava sangrando, e ele não olhou para cima novamente. O sibilado parou, mas a raiva remanescente dos prisioneiros parecia quase tangível, tão acre como se houvesse fumaça suspensa no ar.

"Acalme-se", sussurrou Branko para Gebris. Branko colocou a mão no ombro do homem mais baixo, mas Gebris a sacudiu irritado.

Desde que se conheceram, há alguns meses, Gebris sentiu uma antipatia imediata por Branko, que tinha mais de dois metros de altura. Além de alto, Branko era tão largo e musculoso quanto um ferreiro. Ele sentia que era apenas o seu tamanho que mantinha a situação sob controle.

"Eu não pedi por isso!", esbravejou Gebris. "Os malditos planejaram isso."

"Quem, Zivan?", perguntou Branko. O Árbitro Zivan ordenara a Prisão em Massa, que fora alardeada como a limpeza definitiva dos Golgari.

"Não, seu idiota", Gebris retrucou. "Eles, os rastejadores da podridão. Eles deixaram que os prendêssemos, para que pudessem voltar e nos matar aqui."

Branko não respondeu. Não gostava de falar na frente dos prisioneiros. Podia sentir os olhos deles em suas costas, rastreando cada movimento seu.

Arte de Ryan Pancoast
Arte de Ryan Pancoast

"Vamos levá-los pelo pátio de exercícios", instou Gebris. "Podemos trancá-los nas celas do Bloco Sul."

Branko viu lógica nisso. Não havia saída pelo Bloco Sul, mas pelo menos os prisioneiros seriam contidos por algo resistente.

"E quanto à luz do sol?", perguntou Branko. Havia protocolos rígidos sobre o transporte de prisioneiros Golgari, e a exposição à luz solar era proibida a menos que os formulários apropriados tivessem sido aprovados.

"Eu não me importo com a luz do sol", gritou Gebris. Branko assentiu rapidamente em concordância — Gebris estava em um estado mental perigoso.

Depois de acordarem os prisioneiros, Branko esperou com o grupo principal dentro da porta no final do corredor. Ele enviou dois de cada vez pelo pátio ensolarado. Gebris os recebia no lado oposto. Eles haviam movido apenas metade do grupo quando o homem com o lábio sangrento chegou à frente da fila. Branko fez sinal para que ele saísse para a luz do sol, mas ele se recusou a se mexer.

Arte de Marco Nelor
Arte de Marco Nelor

Quando Branko estendeu a mão para ele, houve uma onda de movimento entre os Golgari restantes, que se levantaram em massa e o cercaram. Branko conseguia ver por cima da multidão, e dois prisioneiros estavam conduzindo a górgone em sua direção. Um dos prisioneiros se libertara de suas amarras e estava alcançando a venda da górgone. Eles iam usá-la como arma.

Encurralado por corpos, Branko não conseguia chegar à porta. Eles o chutavam, tentando quebrar seus joelhos. Uma indignação justa o dominou, e ele contra-atocou, batendo seus ossos delgados de pássaro contra as paredes, esmagando crânios com socos, quebrando espinhas sobre seu joelho maciço.

A górgone — agora livre de suas amarras — estava prestes a entrar na briga. Branko não gostava de lutar nesses espaços fechados. A menos que quisesse se tornar um bloco de granito, ele tinha que derrubá-la primeiro. Fechando os olhos, ele avançou contra a górgone. Ele prendeu suas mãos enormes nos ombros ossudos dela e lançou-se para a porta aberta, arrastando-a consigo.

O sol estava escaldante quando eles caíram no pátio arenoso. Branko caiu parcialmente sobre a górgone, mas conseguiu manter os olhos fechados. Ela sibilou palavras desconhecidas e arranhou seu rosto. Golpeando às cegas, ele esmagou o cotovelo contra ela repetidamente. O corpo dela ficou imóvel sob ele. Mas, quando começou a se levantar, dedos rasgaram sua orelha. Ele ouviu um som de rasgo e gritou de agonia. Branko rolou para longe da górgone, seus olhos se abrindo involuntariamente para o caos ao seu redor. Os prisioneiros corriam livremente pelo pátio. Eles haviam perdido o controle.

Seus olhos se voltaram para a górgone, que estava agachada no chão. A dor estava deixando Branko nauseado, e sua orelha parecia estar pendurada perto de seu pescoço. O mundo inclinou-se lateralmente enquanto uma luz carmesim pulsava ao redor dele. Branko sabia que estava prestes a desmaiar.

Ao lado dele, o sangue jorrava do lado da cabeça da górgone. A cabeça dela pendeu para o lado e uma luz bruxuleante a envolveu. As mãos de Branko cavaram a terra como se para manter o equilíbrio que já havia perdido.

Quando ele olhou para cima novamente, a marca de seu corpo na areia era tudo o que restava. A górgone havia sumido.

Arte de Karl Kopinski
Arte de Karl Kopinski

Era um caso simples: o décimo oitavo andar de um cortiço desabou, matando quatro pessoas, incluindo dois membros da família Lapt. O Sr. Lapt estava pedindo indenização.

O Árbitro Relov começou a mergulhar sua pena no tinteiro e depois pensou melhor. Ele releu o depoimento manuscrito do reclamante no final do Requerimento:

As tábuas de madeira do piso estavam macias há várias semanas. Acredito [sic] que havia um cano com vazamento. Falei com o proprietário sobre isso duas vezes, e ele não fez nada.

Acredito? Quanto mais Relov olhava para aquela palavra, mais irritado ficava. As primeiras dez páginas do Requerimento estavam em ordem. O Requerente citara os estatutos corretos e sua fundamentação jurídica era sólida. Não havia Invisíveis com que se preocupar — o proprietário era um senhor de cortiço sem guilda e sem conexões com o submundo que pudessem causar problemas para os Azorius em uma data posterior.

Relov considerou a pilha instável de documentos no canto de sua mesa. Bem, ele daria uma lição a esse homem. Aprenda a escrever, Sr. Lapt, e pare de desperdiçar meu precioso tempo. Com isso, ele deslizou o Requerimento para o fundo da pilha.

Relov voltou sua atenção para as outras pilhas de papelada em sua mesa. Ele gostava da meticulosidade da linguagem jurídica — assumindo que fosse bem feita — e a tarde passou agradavelmente. Relov aprovou uma multa para os detidos nas proximidades de um motim, mesmo que não pudesse ser provado que participaram. Em seguida, deu sua aprovação para uma nova estátua do Grão-Árbitro Leonos. Levara meses de discussão para concordar que ela seria colocada perto da entrada principal de Nova Prahv (mas não ao lado dela).

Arte de Drew Baker
Arte de Drew Baker

Ele acabara de terminar seus argumentos escritos contra o financiamento de uma iniciativa anticulto quando uma escrivã apareceu à porta de seu espaçoso escritório com outra pilha de documentos. O trabalho de um Árbitro nunca terminava...

"Há um ruído de chocalho na ventilação que está me distraindo", disse ele à jovem. "Você pode verificar isso?"

"Posso enviar uma solicitação para um Comissário", ela respondeu lentamente. Não era trabalho de uma escrivã preencher o Formulário de Solicitação, mas eles eram tediosos, e uma escrivã certamente teria mais tempo livre do que um Árbitro.

"Agradeço sua gentileza", disse ele com um sorriso cativante.

"Sim, senhor", disse ela. Ela colocou duas cartas seladas em sua mesa. "Estas chegaram por mensageiro."

O sorriso dele azedou. Ele poderia repreendê-la por não apresentá-las imediatamente, mas decidiu deixar passar. Ele precisava daquele Comissário, afinal. Assinou o Documento de Recebimento e ela desapareceu nos corredores labirínticos da guilda Azorius.

A primeira carta era um Requerimento urgente para Uso Imediato de um executor Orzhov, que queria acesso a esferas de detenção. O pedido violava doze estatutos, mas quando Relov viu o número rosa pálido impresso na parte inferior, assinou sem hesitação. Ele passou o polegar sobre o número, borrando a quantia que logo seria depositada em sua conta no Banco Vizkopa.

Arte de Kev Walker
Arte de Kev Walker

A segunda carta era de Javy, uma investigadora Boros e uma de suas amigas mais antigas. Anos atrás, ele liderara um empreendimento conjunto com os Boros conhecido como Iniciativa de Segurança. Agora extinta, ela resgatava crianças dos Gruul ou das prisões de indigentes e as colocava nas academias Azorius ou Boros. Javy fora sua apoiadora mais fervorosa. Naqueles dias, eles eram jovens, idealistas e mais do que um pouco tolos sobre a possibilidade de mudar as coisas para melhor.

Relov tornara-se mais astuto ao longo dos anos, mas Javy nunca perdera seu idealismo. Então, há um ano, Javy e seu parceiro foram atacados em um armazém no Distrito da Fundição. Ambos foram severamente espancados, e apenas Javy sobreviveu. Relov ouvira os boatos — supostamente os Orzhov queriam silenciá-los — mas não falara com ela desde o incidente. Ele quebrou o lacre de cera. Um endereço estava anotado no topo da página, e então seu garrancho familiar:

Qual é o ponto culminante de uma vida de palavras? Baldes de sangue. Venha agora. #linebreak —Javy

As Sombras de Prahv, Parte 2

O bilhete enigmático de Javy levou Relov a um cortiço de má reputação. Quarto andar. Lado Leste. Javy o esperava em um corredor escuro que cheirava a veneno de rato. Apesar dos arredores sórdidos, ela parecia impecável como sempre. Seu uniforme Boros assentava-lhe como se tivesse sido costurado pelos melhores da Tailor's Row.

"Javy, que bom ver você", disse ele. Ele a beijou na bochecha. Ela sorriu levemente e depois deu um soco leve em seu ombro. Ela parecia mais magra do que ele se lembrava, mas não havia outros sinais da provação que a mantivera nas alas de cura por meses. Ele ficou aliviado ao ver que o rosto dela não fora marcado pelo espancamento.

"Alguma notícia sobre o estatuto das execuções?", perguntou Javy.

"Ainda não", mentiu Relov. A pedido de Javy, ele sugerira limitações mais rígidas às execuções, mas sua proposta fora derrubada pelo Grão-Árbitro Leonos há um ano. Ele não tivera coragem de contar a ela.

Arte de Scott Chou
Arte de Scott Chou

Javy apontou para o quarto atrás deles. "Veja se você o reconhece."

O quarto sem janelas era pior do que o próprio edifício. Mofo cinza manchava as paredes e rachaduras cruzavam o teto. Uma estrutura de cama dourada quase preenchia o espaço, que cheirava a batatas podres. A saliência no meio da cama era quase irreconhecível como um cadáver. Em vida, ele fora um homem gordo. Na morte, parecia esvaziado — abandonado — como um peixe arrastado para margens desconhecidas. Grandes poças de sangue pegajoso pontilhavam o chão irregular.

"Eu não vou entrar aí", retrucou Relov. Javy empurrou sua lâmpada de mão na direção dele.

"Fique na borda", disse ela. "E preste muita atenção na pele."

Relov murmurou algo rude e entrou no horrível quartinho. Ele caminhou na ponta dos pés até a beira da cama e espiou o cadáver. A pele parecia manchada, mas de uma maneira estranhamente matemática. Apesar de sua repulsa, ele se inclinou mais perto. Palavras haviam sido impressas magicamente em cada centímetro do corpo do homem morto. As palavras eram minúsculas, quase pequenas demais para decifrar. Mas eram profundas o suficiente para que o sangue escoasse pelas feridas abertas. A pele da vítima cedia de forma perturbadora, mas Relov conseguiu distinguir algumas palavras: lei; juiz; prova.

"Baldes de sangue, de fato", disse Relov quando voltou ao corredor. "Isso é horrível."

"O nome dele é Zivan", disse Javy. "Um Árbitro como você, ou pelo menos foi o que me disseram. Eu esperava que você pudesse me dar algo sobre ele."

Zivan fora um legislador lendário, mas Relov só conhecia o homem por sua reputação. Certa vez, Zivan falara por dezesseis horas seguidas apenas para protelar um pedido de assistência a refugiados. Relov ouvira boatos sobre a queda de Zivan, mas aquilo era, bem, humilhante.

Passeio Transguildas | Arte de Noah Bradley
Passeio Transguildas | Arte de Noah Bradley

Mais tarde, Relov sentou-se com Javy em um banco no Passeio Transguildas. A luz entrava pelas lacunas nos arcos cerimoniais e uma brisa fresca sacudia as árvores ao longo da trilha. Era uma tarde de dia útil e o tráfego de pedestres era leve. Relov amava o passeio, onde a agitação da cidade era silenciada pelos selos de ruído Azorius.

Javy ouviu atentamente enquanto ele contava tudo o que lembrava sobre o Árbitro Zivan, o que honestamente não era muito.

"Ele era muito respeitado em sua época", concluiu Relov. "Um debatedor primoroso com raciocínio jurídico sólido. Mas ele desperdiçou tudo em casas de prazer Rakdos e não é um dos nossos há bastante tempo."

"Você não sabe qual casa de prazer, por acaso?", perguntou Javy.

Relov riu. "Não é minha área de especialização." Ele não tinha interesse no que os Rakdos ofereciam.

"Você já trabalhou com Zivan?", perguntou Javy.

"Não diretamente", Relov lhe disse.

"Tem certeza?" Ela abriu sua pasta de documentos e entregou-lhe um pergaminho desbotado. Era uma antiga Ordem de Prisão em Massa, datada de quando Relov acabara de ser promovido a Árbitro. Sua própria assinatura estava entre as de um punhado de seus pares, incluindo a do Árbitro Zivan.

"Eu assino centenas de documentos por dia", explicou ele. "Isso não significa que eu o conhecesse pessoalmente."

"Leia o resto dos nomes", disse ela. "Nota algo neles?"

"Não, deveria?", perguntou Relov com irritação. Ele odiava a sensação de que alguém sabia algo que ele não sabia.

"Estão todos mortos", disse ela. "Exceto você."

Relov olhou mais de perto e viu que ela estava certa. Todos haviam falecido. Dois deles apenas no último ano.

Arte de Johannes Voss
Arte de Johannes Voss

"Alguns desses cavalheiros eram bem velhos..."

"Este documento autorizou uma varredura na Subcidade Golgari", Javy o interrompeu. "Foi a maior que os Azorius já tentaram. Tornou-se violenta e quase cem foram mortos, muitos enquanto estavam sob custódia."

Relov pensou profundamente. "Eu me lembro disso. Houve um clamor público por causa de alguns guardas. Foram acusados de carnificina ou alguma bobagem do tipo."

Ele notou que Javy estava cerrando o punho. Sob a luz do sol, as costas de sua mão eram uma teia de aranha de finas cicatrizes brancas. Ela fechou os olhos e inclinou o rosto para o sol. Ele esperou por alguns momentos, mas ela não se moveu.

"Javy, como você tem passado desde o ataque?", Relov perguntou sem rodeios. "Ouvi dizer que o perpetrador foi libertado por um tecnicismo."

Javy virou a cabeça em direção a ele e mostrou os dentes, como um cachorrinho prestes a cravar os dentes na carne de sua perna. "Se por 'tecnicismo' você quer dizer 'suborno', então sim, ele foi."

"Ora, Javy...", disse Relov calmamente.

"Alguém está matando Azorius", disse ela calmamente, seu rosto novamente uma máscara de profissionalismo. "Alguém com rancor contra você, especificamente."

Fonte Consagrada | Arte de Jung Park
Fonte Consagrada | Arte de Jung Park

"Por que você acha isso?", perguntou Relov. "Baseado neste documento? Como você o encontrou, afinal?"

Javy deu de ombros. "Eu não encontrei. Ele me foi fornecido. Estou investigando uma série de assassinatos."

"Que assassinatos?", perguntou Relov com alarme.

"Alguém está... massacrando as pessoas da maneira como viveram suas vidas", respondeu ela.

Relov olhou para ela com exasperação. "Tente ser menos vaga, quer? Significando o quê?"

"Se eram egoístas, morrem desse impulso. Se eram cruéis, enfrentam esse julgamento na morte. Entende o que quero dizer?"

"Não", disse Relov honestamente. "Realmente não entendo."

"Bem, na semana passada um homem foi pendurado em um pilar no fórum. Disseram-me que ele amava os holofotes públicos. Na semana anterior, o coração de um juiz foi removido e enviado às vítimas a quem ele negara justiça. Ou o seu Sr. Zivan. Ele viveu pelo poder das palavras e morreu pelo mesmo motivo."

"Bem", disse Relov. Ele não ouvira nada sobre isso e sentiu-se um pouco abalado. "Agradeço seu aviso."

"Cuide-se", disse ela, roçando o braço dele com as costas da mão.

Assim que Relov voltou a Nova Prahv, preencheu um Requerimento de Proteção Constante.

Branko Uma-Orelha deixou os Azorius após a invasão. Com a ajuda de seu pai, comprou um cortiço capenga perto de Keyhole Downs. Ao longo dos anos, o prédio tornou-se parte do território Rakdos. As pessoas só viviam lá se não pudessem pagar em outro lugar. Mesmo depois que os Rakdos partiram, Branko não mostrou interesse em consertar os tubos de calor Izzet quebrados ou limpar o lixo das escadarias.

Um inquilino o encontrou encostado na pedra angular no beco imundo atrás de seu cortiço. O topo de seu crânio fora removido cuidadosamente por incisão mágica. Seu cérebro fora removido e colocado em seu colo, e ali ficou, como um cão de estimação. O crânio vazio estava entupido com moedas sem valor.

"Um fim apropriado", meditou Javy, lançando um rápido olhar pela biblioteca de Relov. Estava escuro do lado de fora da grande janela de vidro, caso contrário ela poderia ter visto o novo jardim suspenso que ele encomendara recentemente aos Selesnya.

"Horrível", foi a resposta de Relov. "Mas o que isso tem a ver comigo?"

"É isso, não é?", disse Javy baixinho. "Tudo é sobre você."

O comentário dele o irritou, mas ele conteve a língua. Era quase meia-noite e, de alguma forma, ela convencera seu porteiro a deixá-la entrar em sua residência urbana. Ela não estava de uniforme esta noite. Usava calças pretas largas e uma túnica, como uma plebeia. Ela chegara carregando uma coleção estranha de emoções, que ele não conseguia decifrar. Então, sentou-se atrás de sua enorme mesa de mogno e esperou.

Arte de Svetlin Velinov
Arte de Svetlin Velinov

"Ele foi um dos guardas durante a invasão Golgari. Ele deveria ter enfrentado o tribunal e ser responsabilizado."

"Então, ele é outro em sua série de assassinatos?", adivinhou Relov.

"Conte-me sobre a invasão", disse Javy.

"Eu não sei nada sobre isso", Relov lhe disse.

"Você a ordenou", Javy o lembrou.

"Isso não é inteiramente exato", protestou Relov. "Eu apenas assinei o papel. E não estava lá. Nunca estive no Complexo de Detenção em minha vida."

"Quando você coloca sua marquinha em um desses editos, chega a pensar no que isso significa?", exigiu Javy. "Há pessoas do outro lado deles, Relov. A vida das pessoas é afetada terrivelmente pela sua assinatura."

"É claro que penso nelas", retrucou Relov. Mas, ao mesmo tempo que dizia, sabia que não era verdade.

Arte de Karl Kopinski
Arte de Karl Kopinski

"Você costumava pensar", Javy concordou. "Mas não mais. Você se lembra daquelas pessoas que ajudamos? Alguma vez pensa nelas? Pergunta-se se apenas as está matando agora, em vez de antes?"

"O que elas têm a ver com tudo isso?", perguntou Relov. "Nós temos regras. Os Boros têm regras. Suponho que até os Golgari tenham regras. Regras não são o problema."

"Então qual é o problema?", perguntou Javy.

"Eu não vejo um problema", disse Relov enfaticamente. Mas ele via. E ele havia invadido sua casa sem ser convidado à meia-noite.

"Não, da sua bela mansão você não veria", disse Javy tristemente. "Ela estava certa sobre você. Eu discordei no início, mas ela estava certa."

"Quem, sua mestre de guilda?", perguntou Relov. Ele ouvira boatos de que a Mestre de Guilda Aurélia estava radicalizando seus soldados Boros e, se fosse o caso, os Azorius não poderiam permitir.

"Encontrei uma nova mestra e ela eclipsa meu trabalho com os Boros", disse-lhe Javy. "Ela detém a verdade. Vida na morte e morte na vida. É um círculo eterno e aqueles que o perturbam com suas próprias ambições devem experimentar uma morte profunda."

Relov olhou para Javy e decidiu que ela devia ter perdido o juízo.

"O ciclo de existência de uma pessoa deve ser pontuado pela natureza em que ela viveu", continuou Javy com seriedade. "Apenas isso incitará a reiteração nas raízes mais profundas."

"Você está me assustando, Javy", disse-lhe ele. Ele detestava bobagens metafísicas, mas vindo de uma de suas amigas mais antigas, era absolutamente repugnante.

"Estou?", meditou ela. "Pela primeira vez, eu não sinto medo. Você descarta a vida das pessoas como se fossem ratos a serem exterminados. Você se aprochega de homens como aquele que... me machucou. No entanto, você está seguro atrás de sua muralha infinita de palavras. Pelo menos acha que está."

Houve um baque surdo lá fora, no corredor. Ele se levantou de um salto. Javy não se moveu.

"Isso deve ser seu porteiro caindo morto no chão. Em seguida, sua porta se abrirá. E você verá o rosto de sua juíza."

Vraska, a Invisível | Arte de Aleksi Briclot
Vraska, a Invisível | Arte de Aleksi Briclot

"Não olhe para o rosto dela", ordenou Javy a Relov enquanto a górgone entrava na sala.

Relov recuou horrorizado, mantendo os olhos no chão. Ele nunca vira uma górgone antes, mas todas as crianças em Ravnica ouviam histórias de terror sobre o que elas podiam fazer.

"Você deveria se sentir honrado", disse Javy. "De todos os assassinatos que cometi em nome dela, ela nunca quis participar de um antes."

Vraska o agarrou pela garganta e ele apertou as pálpebras com força. O rosto dela estava tão perto do lado de sua cabeça que ele podia sentir seus lábios frios contra sua orelha. A voz dela era um estranho rosnado gutural.

"Pouco antes de seu 'guarda' me matar, fui arrancada deste mundo. Fui lançada em uma tumba escura sem saída."

Relov tentou protestar. Ele não sabia nada sobre a invasão! Nada sobre tumbas ou qualquer coisa que ela estivesse dizendo. Mas ela estava sufocando-o e sussurrando palavras que apenas ele podia ouvir.

"Pareceram vidas inteiras antes que eu aprendesse a escapar, a deslizar pelos confins de um mundo. Mas durante a eternidade em que estive presa, decidi que todos deveriam receber a morte que merecem."

A górgone colocou os polegares nas pálpebras de Relov. "Javy. Escolha uma morte profunda. Cabe a você decidir."

Javy não hesitou. "Inação", disse ela.

A górgone sorriu levemente. "Perfeito."

Pela manhã, a nova estátua já havia sido instalada perto do portão principal, para surpresa dos Comissários, que não a esperavam por mais uma semana. Houve um certo burburinho entre os Árbitros, que disseram que ela não se parecia muito com o Grão-Árbitro Leonos. Viu o desagradável hiato nos lábios? E havia cabelo demais. Mas o acabamento era primoroso, então a conversa logo terminou.

Ninguém olhou por tempo suficiente para ver a semelhança extraordinária com o desaparecido Relov ou o terror em seus olhos fixos.

Experimento Épico

Arte de David Rapoza
Arte de David Rapoza

Trenz ajustou seus Óculos de Endotaxia sobre a ponte de seu nariz torto. Bom dia, Dia de Experimento! Piscando em meio à névoa de Poeira Hiperocular que flutuava no ar, ele aspirou uma enorme quantidade dela pelas narinas. Trenz apreciava o aroma de metal fumegante que emanava do Nitroxidador Magnético, sua engenhoca carregada de mana que preenchia toda a parede leste.

O sol da manhã espreitava pela janela rachada, que dava para o quarteirão abandonado de edifícios que Trenz carinhosamente chamava de Fileira da Taça Vazia. Ele acenou para o devotado grupo de missionários Selesnya que estavam limpando os escombros — à mão — há meses. Nesse ritmo, em 102,7 anos, eles teriam limpado um bom local para plantar uma nova árvore da guilda para sua comunidade nascente.

Trenz examinou sua oficina arejada e sentiu como se fosse explodir de prazer. Em algum lugar, a milhas de distância no Décimo Distrito, a Mente de Fogo provavelmente estava reclinada em seu ninho em Nivix, considerando um milhão de coisas ao mesmo tempo. Trenz desejava poder reter uma fração das coisas em sua mente que Niv-Mizzet ponderava em um piscar de olhos.

O próprio Niv-Mizzet concedera esta área remota da cidade a Trenz como um parquinho para seus Experimentos Exoespeciais. Mesmo antes de ser um Quimista de pleno direito, Trenz atraíra a atenção do dragão quando criou um túnel de Éterpraxe de Nivix até os portões de Soliar. Ultimamente, a Mente de Fogo vinha presenteando Trenz com tarefas pessoais que o levavam a direções que nunca teriam ocorrido a ele por conta própria. Sim, coisas grandiosas estavam acontecendo, e Trenz não conseguia se lembrar da última vez que dormira. Havia simplesmente muita coisa para fazer para se dar ao trabalho de fechar os olhos.

E hoje era o Dia do Experimento! Trenz quebraria o ovo da verdade e o depositaria às garras de seu mestre. Trenz afivelou seu elmo Omniexplosão e baixou o Eletrolocoscópio sobre o rosto. Ele girou o visor pela sala, maravilhando-se com os detalhes incríveis. Havia impressões digitais esquecidas de um pedreiro ao longo do teto abobadado. Manchas de sangue de ontem respingadas nas pontas de suas botas reforçadas. Trenz amava pequenos detalhes. Tudo somava para algo grandioso.

Experimentação sem risco não levaria a lugar nenhum. Uma explosão era apenas a arte de uma mente em chamas!

Ele caminhou pelo assoalho empenado e parou diante do Nitroxidador Magnético, um negociador de elementos de seu próprio projeto. Tão pequeno. Tão perfeito. Se fosse um rato de estimação, ele o beijaria entre suas orelhinhas peludas. Trenz suspirou de felicidade. Se isso é pensar, não sei o que eu estava fazendo antes, pensou ele alegremente.

Seu momento épico chegara. Ele o restringira a quatro testes, cada um florescendo com potencial. Cada um renderia joias de informações inestimáveis para entregar ao Ninho. Mas apenas um era a escolha certa. Mas qual? Escolha sabiamente, Sr. Trenz!

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Fenda Ciclônica | Arte de Chris Rahn
Fenda Ciclônica | Arte de Chris Rahn

Trenz selecionou a Câmara de Antiestase Aérea. Ele ligou as bobinas de Mizzium e entrou no campo de Névoa de Fogo gerado pela câmara. A névoa redemoinhava ao seu redor, picando suas bochechas com minúsculas farpas. Sob seus pés, as tábuas do chão tremiam. Lá fora, o céu escureceu e o vento soprou dramaticamente. Um funil violento de vento materializou-se do lado de fora da janela de sua oficina, para o horror dos missionários Selesnya que correram para se proteger em um bueiro.

O funil rasgou o quarteirão abandonado. Arrasou apartamentos de arranha-céus e demoliu uma missão Orzhov vazia. Hordas de ratos que viviam nos escombros correram para o esgoto enquanto anos de lixo deixados por invasores Gruul rodopiavam no ar. Tão rápido quanto apareceu, o funil sumiu e o sol voltou.

Trenz olhou ao redor de sua oficina com decepção. Um tornado de vento carregado de relâmpagos não era o que ele esperava. Estranhamente, os Selesnyanos estavam gritando de alegria do lado de fora de sua janela. Uma grande faixa do quarteirão fora limpa — como se um gigante com uma vassoura tivesse se apiedado de sua missão. Gritos alegres de "A semente! Peguem a semente!" flutuavam no ar enquanto Trenz voltava para a prancheta de projetos.

Arte de Scott M. Fischer
Arte de Scott M. Fischer

Trenz selecionou o Ectofractalizador Espacial. Com todo o cuidado, ele despejou a mais pura Poeira Ocular no orifício. A poeira começou a brilhar fracamente, o que de alguma forma o fez fungar. Dentro do frasco de contenção, a poeira estremeceu, aglomerou-se e estremeceu novamente. Trenz espirrou, e a realidade fragmentou-se em belos tons de cobalto e purpúreo. Ops, pensou Trenz. Muita poeira.

Enquanto isso, nas entranhas da subcidade, duas figuras sombrias mantinham uma discussão acalorada. Assim que a luz purpúrea os atingiu, eles recuaram para as sombras. Um homem de cabelos brancos apareceu do nada, praguejou alto e começou a marchar ruidosamente pelas pedras do calçamento em direção à superfície. Enquanto ele desaparecia de vista, a dupla assustada olhou-se com espanto. Um belo portal brilhava na frente deles, e o Sr. Taz tinha certeza de que os levaria exatamente para onde precisavam ir.

"Bem, Krenko", Taz murmurou para o goblin de nariz adunco parado ao seu lado. "Entrar no santuário interno Orzhov pode não ser tão difícil quanto você acreditava inicialmente."

Morteiros de Mizzium | Arte de Christina Davis
Morteiros de Mizzium | Arte de Christina Davis

Trenz selecionou o Geolômetro Megatérmico. Mantendo a cabeça bem para trás, ele bateu o geolômetro contra as bobinas de Mizzium supercarregadas. Nada aconteceu. Ele soprou os tufos de poeira e bateu com mais força.

De repente, espirais de chama derretida dispararam pelo ar. Fragmentos de metal superaquecidos choveram sobre o distrito e abriram buracos do tamanho de moedas em telhados por milhas ao redor. O chiado do metal queimando deu lugar a terremotos lentos que fizeram as ruas ondularem como ondas.

As luzes brilhantes e o barulho estrondoso atraíram a atenção dos cultistas Rakdos. Nada diz "celebração" como uma destruição aleatória e generalizada. Bruxas de Sangue saíram cambaleando de Rix Maadi. Clubes de prazer esvaziaram por toda a cidade. Os operários e espancadores acordaram seus vizinhos relutantes e logo as ruas se encheram de foliões.

Em meio à sua diversão, os cultistas concordaram que deveriam fazer isso todo ano, e assim nasceu o novo Dia de Festival de Caos de Sangramento de Chuva de Fogo e Apreciação do Vizinho.

O espetáculo continuou noite adentro — mesmo depois que Trenz jogou o Geolômetro pela janela e foi para a cama.

Experimento Épico | Arte de Dan Scott
Experimento Épico | Arte de Dan Scott

Trenz escolheu o Cismatrodo Neural. Ele apertou os parafusos contra suas têmporas e esperou expectante. Houve um tilintar seguido de um guincho assustado. O ar entrou em seus ouvidos como se seu cérebro tivesse se transformado em um dispositivo Succionatrônico. Seus pensamentos pareciam pulverizar-se sob o peso de algum martelo mental. "Não!", gritou ele. "Não devo decepcionar a Mente de Fogo." Desesperadamente, ele ergueu seu Bracelete de Zigon e, de repente, a sala irrompeu em relâmpagos e puro gênio inalterado. Ele escolhera corretamente, e a recompensa estava finalmente em seu aperto eletrizado!

Em Louvor à Alma do Mundo, Parte 1

"Pés de Lã!", a jovem elfa guinchou antes de puxar desesperadamente a rédea esquerda. Seu lobo desviou bruscamente e tropeçou na viga baixa. A elfa agarrou-se a ele, escorregou lateralmente na sela e ambos caíram desajeitadamente no chão.

Ruzi conteve a vontade de rir. "Pés de Lã? Esse é o seu novo apelido?"

O lobo rosnou em resposta à pergunta e lançou à jovem elfa um olhar indignado.

"Diga-me o que você fez de errado", disse Ruzi à sua aluna de duas pernas.

Era a primeira vez da elfa no salão de treinamento, que era uma combinação de pista de obstáculos e sala de aula. O salão grande e arejado tinha um chão de treinamento amplo com uma rede elaborada de fios de alta tensão e obstáculos pendurados. O local cheirava a raspas de cedro e madressilva, que florescia nas paredes de treliça. Em dias ensolarados como hoje, Ruzi abria a claraboia de vidro ornamentada para deixar entrar a brisa do verão.

Como Mestre Treinador, Ruzi ensinava os Selesnyanos mais jovens e seus lobos a se tornarem Cavaleiros de Lobo. O conjunto de caixas, pilares e vigas fora projetado para imitar o ambiente que seus alunos enfrentariam ao atravessar os telhados da cidade.

"Puxei a rédea com muita força?", murmurou ela, limpando a areia do pelo avermelhado de seu lobo. A garota e seu lobo, ambos no início da adolescência, tinham a curiosidade de olhos arregalados de que ele sentia falta de sua própria infância. Eles também tinham os membros longos e desajeitados dos quais ele não sentia a menor falta.

"E?", instigou Ruzi.

Quando ela pareceu confusa, ele se voltou para o restante de seus alunos, que observavam atentamente do estrado de madeira que contornava o perímetro do chão de treinamento. Este grupo de jovens era novo no treinamento, mas todos haviam nascido no Conclave, então ele reconhecia seus rostos. Os cavaleiros precisavam criar vínculos com os filhotes ainda jovens, de modo que recrutas adultos para a guilda raramente alcançavam o status de Cavaleiro de Lobo.

Ninguém falou. Apenas olharam para o professor com reverência silenciosa. Ruzi era uma lenda entre os Selesnyanos, para seu próprio incômodo. Mas bastariam algumas sessões de treinamento para que os jovens esquecessem seu heroísmo durante as Revoltas do Distrito e se concentrassem no trabalho de tornarem-se cavaleiros competentes.

"Ela desacelerou antes de chegar à viga", disse Ruzi. Ele girou a manivela de uma polia e elevou a viga estreita bem alto do chão. "Ao diminuir a velocidade, você diminui a agilidade. Você precisa confiar nos instintos de seu lobo e não ceder aos seus medos."

"Kuma!", Ruzi chamou seu lobo, que já estava saltando do estrado para ocupar seu lugar ao lado de seu cavaleiro.

Kuma estava sem sela ou rédeas, então Ruzi agachou-se nas costas largas do lobo. Assim que Kuma sentiu o peso de seu cavaleiro, saltou entre as plataformas alternadas até atingir o posto mais alto perto do teto. A viga estreita balançava com o vento que descia pela claraboia aberta. Mas Ruzi instou seu lobo a seguir em frente sem hesitação. Kuma parecia dançar através do vão enquanto Ruzi simulava disparar flechas para seus alunos maravilhados.

De volta ao chão, Ruzi sorriu para Kuma, que retribuiu com um sorriso dentado. "Confiem em seu lobo", disse ele. "Assumam que ele é pelo menos duas vezes mais esperto que vocês."

Seus alunos riram e dirigiram-se para a saída, brincando alegremente com os lobos aos quais estavam vinculados desde antes de conseguirem andar.

Quando o último saiu pela porta, ele finalmente reconheceu a dríade que estivera fervilhando junto à porta durante a maior parte da sessão. Ele queria que ela fosse embora, então a ignorara, assim como sua crescente frustração.

"Bem-vinda, Mazena", disse ele. "O que posso fazer por você?"

"Temos uma mensagem importante da Mestre de Guilda Trostani, e você nos manteve esperando por uma eternidade", retrucou ela.

"Você preferiria que eu negligenciasse meus alunos em seu favor?", perguntou ele. Mazena era uma das conselheiras mais confiáveis de Trostani. Seu carisma era inegável, mas seu legalismo era insuportável. Ela emanava uma aura de poder e autoconfiança que ao mesmo tempo o atraía e o repelia.

"Preferiríamos que você passasse mais tempo louvando a Alma do Mundo do que fazendo truques de carnaval para as crianças."

"É difícil aprender o que não se pode ver com os próprios olhos", respondeu Ruzi. Ruzi não era popular entre as dríades. Seu descontentamento com a liderança da guilda era amplamente conhecido, e apenas seu passado heroico o mantinha nas boas graças das líderes dríades.

"E no entanto a Alma do Mundo é nossa maior mestra e nosso maior mistério", disse Mazena. Ela estava citando uma passagem dos Ensinamentos de Trostani, a maneira mais garantida de encerrar qualquer discussão.

"O que você quer?", perguntou Ruzi rudemente, decidindo que o debate filosófico apenas prolongaria o inevitável. Ruzi amava sua guilda — construir jardins, cuidar de animais, honrar a vida e a comunidade. Mas, secretamente, ele amava o trabalho da guilda mais do que adorava a Alma do Mundo. Os Selesnyanos acreditavam que a Alma do Mundo era uma consciência coletiva que os guiava para a unidade e a harmonia. Ruzi achava mais fácil confiar em seu lobo e no arco em sua mão, e usá-los se necessário.

"Queremos harmonia", disse Mazena. "Queremos paz. Queremos o que é melhor para o Conclave."

Ruzi vira muito mais harmonia vinda da ameaça de violência do que de canções entoadas para a Alma do Mundo. "Por que você está aqui agora? Neste momento. Parada na minha sala de aula."

"Trostani sentiu uma situação... preocupante", disse ela. "Você deve ir ao Cinturão de Escombros. Deve partir hoje."

"O quê?", Ruzi perguntou surpreso. O Cinturão de Escombros era uma extensão de terra em ruínas que começava na extremidade distante do Décimo Distrito. "Essa não é uma jornada curta."

"É o melhor para o Conclave", disse Mazena. "Ou, como herói, você se acha bom demais para o serviço?"

Ruzi conteve o impulso de discutir com ela. Havia algo de impreciso em cada faceta daquela declaração. Mas tal era a natureza manipuladora das dríades.

"O que você quer que eu faça lá? Espione os Gruul? Traga algum javali para o jantar?"

Apesar de sua beleza, a dríade fez uma careta notavelmente desagradável. "Precisa mesmo perguntar?"

"Você quer que eu vá até Cecilee", disse ele. "Você quer que eu encontre minha irmã."

"Ela é seu sangue, sua família dentro da nossa família. Como pode hesitar?"

Ele hesitava porque ela havia mudado em relação à garota com quem ele crescera. Ela deixara Vitu-Ghazi para se estabelecer nas terras desoladas do Cinturão de Escombros. Ela partira para curar os doentes e moribundos, para trazer harmonia àqueles que só conheciam o caos. Ela partira, e ele nunca esperara vê-la novamente.

Quando eram jovens, os três — Cecilee, Ruzi e seu lobo Kuma — eram inseparáveis. Mas Cecilee era agora a líder de sua própria comunidade, e as palavras que saíam de sua boca nunca pareciam as palavras dela. Ele ouvira dizer que ela adotara uma criança Gruul abandonada para criar como se fosse sua. Os Cavaleiros de Lobo que a visitavam disseram-lhe que seu novo sobrinho recebera inclusive o nome dele. Mas a própria Cecilee não enviara notícias nem fizera qualquer tentativa de contatar seu irmão.

Ainda assim, Mazena, a Manipuladora, estava certa sobre uma coisa. Quando se tratava de Cecilee, ele não conseguia dizer não.

Horas depois, Ruzi e Kuma haviam alcançado o último telhado na borda do Cinturão de Escombros. Ainda não era madrugada, embora o horizonte distante estivesse tingido com o vermelho do amanhecer que se aproximava. Inquieto, ele examinou o terreno desconhecido abaixo.

Por anos, Ruzi e Kuma viajaram juntos pelas vias aéreas. Ele amava vagar entre as cúpulas e torres onde podia sentir a luz do sol sem obstruções. Jardins de cobertura pontilhavam os telhados, pequenos trechos de vegetação e cor que davam esperança a Ruzi sempre que os avistava. Ruzi odiava o barulho e a miséria do chão, onde o sol mal filtrava até as pedras do calçamento. Lá embaixo, tudo era tingido com uma névoa acastanhada. As cores mais brilhantes eram as roupas esfarrapadas das crianças.

Ele e seu lobo podiam viajar por dias pelos topos dos edifícios sem que as patas de Kuma jamais tivessem que tocar as ruas de Ravnica. Mas parecia que não tinham mais escolha. Diante deles, a escuridão profunda do Cinturão de Escombros estendia-se como um poço de vazio negro. Sem lanternas, sem o perfume reconfortante das folhas, nada além de um matagal desesperado de escombros e selvagens.

"É aqui que Cecilee escolhe deitar sua cabeça?", murmurou Ruzi para seu lobo. Em algum lugar naquela escuridão estava o pequeno vernadi de sua irmã, uma comunidade florescente de evangelistas devotados, que estavam decididos a levar a verdade de Selesnya a todos que ainda não tinham ouvido falar dela.

"Se alguém pode fazer raízes crescerem aqui, é Cecilee", assegurou Ruzi a si mesmo, enquanto voltavam para procurar um caminho para descer ao nível da rua.

Em Louvor à Alma do Mundo, Parte 2

Cecilee veio para construir jardins. Em vez disso, ela construiu muros.

No início, os moldadores de madeira fizeram os muros ao redor de seu assentamento com a altura dos ombros — o suficiente para afastar os javalis selvagens à noite. Depois, colocaram uma fechadura no portão para manter fora os encrenqueiros, como o prendedor Azorius que vivia impondo multas. Apenas alguns dias antes, os moldadores de madeira elevaram os muros para seis metros de altura. Os Gruul estavam zangados com ela, e Cecilee estava preocupada que não fosse alto o suficiente, embora agora se sentisse como se estivesse vivendo em uma prisão.

E era verdade. Os muros não foram altos o suficiente. Mas os Gruul nada tiveram a ver com isso.

Quando se estabeleceram no Cinturão de Escombros pela primeira vez, Cecilee sentiu tontura com tanto espaço aberto. Na maioria dos dias, a borda da cidade era apenas uma mancha azul em meio à névoa. Ela e seus seguidores construíram sua primeira casa em uma planície aberta perto das ruínas extensas de um cortiço, agora envolto em videiras esmeraldas. Os andares do edifício haviam apodrecido, deixando paredes denteadas apoiadas em pilhas de lixo. Com moldadores de madeira suficientes, Cecilee se perguntava se as ruínas poderiam ser animadas para se afastarem e deixarem o Cinturão de Escombros de vez.

Libertação do Druida | Arte de Dan Scott
Libertação do Druida | Arte de Dan Scott

Pela primeira vez na vida de Cecilee, o céu dominava — uma extensão azul que vivia atraindo seus olhos do solo vermelho e seco onde plantavam sementes. Ela sonhava que os jardins de Selesnya logo engolfariam o Cinturão de Escombros. Eles avançariam centímetro a centímetro pela terra destruída e além, reivindicando a cidade imunda e seu punho de pedra sobre o mundo. O Cinturão de Escombros era o lar dos Gruul, uma coleção desarticulada de clãs selvagens que reivindicavam as zonas abandonadas de Ravnica. Para apaziguar seus irmãos Gruul, Cecilee queria um jardim selvagem e emaranhado, diferente dos gramados bem cuidados de Selesnya. Ela queria um lugar onde os Gruul se sentissem em casa.

Nos primeiros dias, a prioridade de Cecilee foi construir um centro de cura. Os Gruul tinham seus próprios curandeiros, mas eles eram nômades e se moviam aleatoriamente pelo Cinturão de Escombros. Os Selesnyanos ofereciam um lugar constante e confiável para ir. Para a alegria de Cecilee, eles vinham; não em grandes números, mas o suficiente para que sua comunidade sentisse que estava fazendo um bom trabalho. Os Gruul recusavam os ensinamentos Selesnyanos, mas Cecilee acreditava que isso viria com o tempo.

Mas então eles adotaram Zi, e tudo mudou. Os batedores encontraram o bebê abandonado no Cinturão de Escombros e o levaram para o vernadi. Ela desenrolou o bebê de seu cobertor esfarrapado e viu uma tatuagem Gruul em suas costas. A descrença espalhou-se por sua comunidade. Como os Gruul podiam ser tão selvagens a ponto de abandonar uma criança? Cecilee deu à criança o nome de seu irmão, Ruzi, e o levou para sua casa para criar como se fosse seu próprio filho.

Às vezes, Cecilee se via desejando seu irmão mais do que rezava para a Alma do Mundo. Ela passara a infância à sombra de Ruzi. Ele atirava melhor e corria mais rápido que ela, e podia vencer qualquer jovem nos arredores de Vitu-Ghazi. Mas ele sempre olhava para trás para ter certeza de que ela não havia tropeçado, e nunca se esquecia de segurar a mão dela nos lugares perigosos. Ruzi era o único que insistia que ela podia falar, embora nem ele — nem ninguém — jamais a tivesse ouvido dizer uma palavra.

E então, um dia, Cecilee falou. Ela se levantou abruptamente durante uma reunião no coração de Vitu-Ghazi, no momento em que a Mestre de Guilda Trostani terminara sua recitação. E todos — desde os centauros batendo os cascos na varanda até os lobos espalhados sob os bancos — fixaram os olhos naquela frágil garota elfa, que não era mais muda.

Palavras de louvor jorravam dela sem pausa, uma recitação em louvor a Selesnya tão bela que até a mais velha das dríades sentiu-se humilhada. Ela é um canal para a Alma do Mundo, diziam. Eles celebraram seu surgimento como porta-voz das verdades fundamentais e épicas que só poderiam ser proferidas pela mente comunitária. Ruzi agiu como se ela tivesse brotado uma segunda cabeça. Mas Cecilee ignorou as preocupações dele. Ela sentia a Alma do Mundo como outros sentiam o cair da chuva. Para ela, tornara-se um dom tangível, onipresente e que nutria a vida.

Bosque do Guardião | Arte de Christine Choi
Bosque do Guardião | Arte de Christine Choi

Quando Cecilee sentiu o chamado para estabelecer um assentamento no Cinturão de Escombros, apenas Ruzi a aconselhou contra isso. As dríades cantavam seus louvores, dizendo que ela era a jardineira que poderia cultivar o mais selvagem deles. Ruzi disse a ela para pensar em sua própria pele. A essa altura, Cecilee não conseguia mais se separar do todo. Ela via os Gruul como parentes rudes de Selesnya. Eles compartilhavam um amor comum pela natureza, afinal. Natureza que estava sendo estrangulada pelas exigências sempre crescentes da cidade-mundo.

Ruzi tentou explicar que os Gruul viam as coisas de forma diferente. Para eles, os jardins impecáveis de Selesnya eram uma falsidade. Sim, folhas de grama podiam ser moldadas para pintar um quadro de harmonia. Mas Ruzi alertou que a harmonia não era uma música que os Gruul pudessem ouvir. Não acima do ruído e do clamor de seus espíritos belicosos. Mas o amor e a aceitação devem prevalecer, insistia Cecilee. Os Selesnyanos devem se esforçar para conquistar os corações de seus inimigos. Não importa o fardo. Não importa o custo.

E assim ela foi, liderando vinte seguidores, para o lugar mais selvagem que qualquer um deles poderia imaginar. E eles começaram a construir um lar. Um lar com braços abertos, mesas abertas e mãos que curam.

Cada noite, Cecilee tentava comungar com a Alma do Mundo. Ela implorava à mente comunitária por perfeição através da unidade. E sua pequena comunidade crescia um pouco a cada dia, assim como a muda da árvore da guilda florescendo no pátio poeirento. Cecilee prometeu aos seus seguidores que algum dia suas raízes se estenderiam por toda Ravnica e todas as vozes louvariam a Alma do Mundo.

Mas eles foram acossados a cada passo. Os Azorius citavam estatutos sobre por que seu centro de cura era ilegal. Um mago Izzet balbuciava sobre energia arcana e portais e exigia que partissem. Depois que Cecilee adotou Zi, os Gruul enviaram uma mulher para levá-lo de volta. A mulher era uma xamã do clã de Nikya. Ela explicou que Nikya reivindicava o menino como parente e exigia que ele fosse criado como Gruul. Mas Cecilee não quis ouvir. Zi fora deixado para morrer nos escombros, e ela não suportaria entregar o menino a uma estranha.

Depois disso, os Gruul pararam de vir ao centro de cura e atacavam os Selesnyanos se eles se aventurassem muito longe de seus muros. A cada noite, as fogueiras Gruul pareciam estar mais perto de seu portão. Alguns sussurravam que Cecilee deveria devolver o menino.

Pouco antes do nascer do sol, o portão deles saltou das dobradiças e estilhaçou-se no chão. Com um único golpe, sua segurança foi despedaçada. Um ogro enorme com o rosto mutilado foi o primeiro a passar pelo portão. Cecilee disse aos seus seguidores para correrem, embora agora os muros os encurralassem. Sozinha, Cecilee permaneceu no pátio com os braços erguidos, como se seu corpo esguio pudesse deter os invasores. Uma mulher estranha e sinuosa cruzou o limiar, seguida por mais homens brutais e cicatrizados. Pela visão de piercings e roupas civis, Cecilee sabia que eles não eram Gruul.

Assassina de Matança por Diversão | Arte de Tyler Jacobson
Assassina de Matança por Diversão | Arte de Tyler Jacobson

A mulher atingiu Cecilee na boca e a enviou cambaleando para a lama. Enquanto Cecilee lutava para se ajoelhar, a mulher a atingiu novamente. Havia muitas pessoas sob seus cuidados, mas tudo em que Cecilee conseguia pensar era em Zi, dormindo em seu berço.

"Eu poderia quebrar seus braços como gravetos", vangloriou-se a mulher. Para Cecilee, ela parecia uma boneca feia, faminta até atingir uma forma esquelética, com um sorriso falso pintado. A mulher arrancou a jovem árvore da guilda do chão e a arremessou pelo pátio; seus asseclas uivavam e dançavam, deliciados com o caos. Cecilee não conseguia se mover, chocada com o desrespeito àquela coisa inestimável que lhe trouxera tanta alegria.

Cecilee não vira muito do mundo fora de Vitu-Ghazi e sabia pouco sobre Ravnica, mesmo sobre o canto do Cinturão de Escombros que agora chamava de lar. Ela não sabia que a mulher era uma assassina Rakdos de aluguel que se chamava Garrota do Massacre. Confrontada com a violência, os membros de Cecilee pareciam pesados como pedra e sua mente era apenas areia inútil. A mulher pegou sua lâmina enferrujada e cortou o cabelo loiro da cabeça de Cecilee. Riu enquanto o fazia.

"Você é uma vaca?", a mulher se perguntou mais tarde. Os seguidores de Cecilee jaziam mortos, de bruços na lama. No entanto, Cecilee ainda estava ajoelhada, cercada por sangue, sujeira e os cachos dourados de seu cabelo. A mulher parecia genuinamente curiosa pela falta de ação de Cecilee. "Por que você não faz nada além de ficar sentada?"

Mas Cecilee tornara-se muda mais uma vez. As raízes que levavam a vida de e para Vitu-Ghazi foram cortadas. A sabedoria de mil almas tornou-se nada mais que um zumbido sem palavras em sua mente sobrecarregada. Havia apenas a mulher e sua lâmina enferrujada cortando a garganta de Cecilee naquela terra devastada e na escuridão do mundo.

Em Louvor à Alma do Mundo, Parte 3

Kuma sentiu o cheiro de sangue antes de Ruzi ver a fumaça. O lobo correu em disparada pelo emaranhado de edifícios em ruínas, diminuindo rapidamente a distância entre eles e o assentamento Selesnyano. O portão de madeira fora arrancado das dobradiças, e Ruzi instou Kuma a atravessar a entrada despedaçada, sem se importar com qualquer ameaça que pudesse estar lá dentro.

Os dois surpreenderam a Garota do Massacre e seus homens enquanto revistavam os corpos em busca de qualquer coisa valiosa. Ao ver uma marca de sangue Rakdos escorrendo pela parede, Ruzi arrancou a faca da bainha em sua perna e estripou o primeiro degenerado que saltou em sua direção.

Mas antes que pudesse puxar a lâmina da garganta do homem, os cultistas o cercaram, brandindo maças com espinhos e correntes ensanguentadas. Ruzi já lidara com os Rakdos no passado. Eles estavam além da compaixão: a vida era tão banal quanto o ar e matar era tão fácil quanto respirar.

O rosnado de Kuma reverberou nas paredes altas. Pelo canto do olho, Ruzi vislumbrou os corpos de seus companheiros Selesnyanos perto da árvore da guilda profanada. O corpo de Cecilee estaria entre os mortos, e esse conhecimento enfraqueceu Ruzi. Fraco demais para se defender de tantos inimigos.

Capanga do Borrifo | Arte de Kev Walker
Capanga do Borrifo | Arte de Kev Walker

A líder deles, pele e osso, espreitava fora do círculo de seus capangas, eles próprios cobertos de espinhos e cicatrizes bizarras. Ela era uma lunática que se autodenominava Garota do Massacre. Ele conhecia sua reputação. Já vira o rastro de seus crimes antes. E sabia que só havia uma razão para ela estar ali.

"Quem contratou você?", gritou Ruzi.

A Garota do Massacre fez sinal para um de seus seguidores. Um ogro armado com ganchos e correntes avançou pesadamente. Uma máscara de metal amassada cobria parcialmente o rosto mutilado do ogro de quase dois metros e meio de altura. Rosnando, Kuma circulou para longe dele. Ruzi agradeceu à Alma do Mundo pelas pernas firmes do lobo, pois as suas próprias tremiam. As emoções de Ruzi o haviam traído. Mesmo que conseguisse armar seu arco a tempo, seu tiro não seria firme o suficiente para atingir o Rakdos.

"Preço pago. Não me importa." A Garota do Massacre estreitou os olhos para ele. "Eu conheço você, garoto-cachorro?"

"Eles eram inocentes!", rosnou Ruzi.

"Ninguém se importa", disse ela. Começou a cantarolar e deu um passinho de dança. Então, cantando alto — ninguém se importa, ninguém se importa — suas provocações ecoaram pelo pátio sombrio.

Virando-se para sair, a Garota do Massacre meteu a mão em sua jaqueta de retalhos e puxou um punhado de confetes coloridos. Jogando-os para o ar, fez uma reverência distorcida e saiu rebolando em direção ao portão. Seguindo o exemplo dela, o restante dos cultistas dirigiu-se ao portão. Todos exceto o ogro, que brandiu suas correntes de ganchos em um arco brutal.

Mangualista do Covil Infernal | Arte de Steve Prescott
Mangualista do Covil Infernal | Arte de Steve Prescott

Kuma sacudiu a cabeça contra as rédeas, mas Ruzi o conteve apenas o tempo suficiente para memorizar o espaço entre eles e o ogro. Apenas o tempo suficiente para que os instintos de seu lobo reivindicassem aquele espaço para a matança. E então eles dançaram pelo vão, soprando entre o sussurro das correntes do ogro.

Esperando um ataque frontal, o ogro investiu contra eles cegamente. Instantaneamente, Ruzi esporeou Kuma para a esquerda, esquivando-se de um golpe descendente do gancho afiado como navalha. Com uma explosão poderosa de velocidade, o lobo saltou em direção à parede. Ruzi puxou para trás, e Kuma impulsionou-se contra as tábuas, girando para trás para surgir por trás do ogro. O ogro urrou de surpresa enquanto suas correntes caíam, inúteis, no chão. Ele girou desajeitadamente para enfrentar o ataque, mas os dentes do lobo fecharam-se em sua garganta antes que o ogro pudesse erguer seus braços roliços para se defender. O ogro desabou no chão, enquanto Ruzi saltava das costas do lobo com sua espada desembainhada.

Sentindo-se assassino, Ruzi decepou a cabeça do ogro enquanto ele ainda jazia balbuciando no chão. Ele evitou os olhos pesarosos de seu lobo enquanto rondava o pátio, verificando se havia mais alguém que tivesse ficado para trás. Naquele momento, Ruzi teria massacrado alegremente qualquer um que um dia tivesse se autodenominado Rakdos.

Amuleto Rakdos | Arte de Zoltan Boros
Amuleto Rakdos | Arte de Zoltan Boros

Mesmo quando teve certeza de que o pátio estava vazio, Ruzi não parou para procurar sua irmã. Tinha medo de que, se reconhecesse a atrocidade, cairia de joelhos e nunca encontraria forças para se levantar. Então pegou uma pá e começou a cavar como se sua própria vida dependesse disso. De fato, precisava terminar antes que o cheiro de sangue atraísse as feras e selvagens. A vida resumia-se ao trabalho. A vida é trabalho. E sem o trabalho, não há nada. Kuma encolheu-se perto do corpo de Cecilee, observando melancolicamente enquanto Ruzi trabalhava freneticamente por horas.

Ruzi ouvira falar da Garota do Massacre pela primeira vez anos antes, quando ela matara um prendedor Azorius por moedas e um segundo apenas por diversão. Ela se tornara intocável ao ameaçar a vida e as famílias de qualquer um que tentasse detê-la. Certa vez, o pai de uma de suas vítimas tentou matá-la em vingança. Quando ele falhou, ela massacrou a linhagem masculina da família e cegou as mulheres. Os Azorius não moveriam um dedo para prendê-la por assassinatos em sua própria guilda. Certamente não fariam nada pelo assassinato de elfos Selesnyanos em um assentamento ilegal.

Para matar a Garota do Massacre, Ruzi precisaria da ajuda de seus companheiros Cavaleiros de Lobo. Mas Trostani jamais permitiria um assassinato por vingança cometido por sua guilda. Se a justiça deveria ser feita, Ruzi teria que romper com Selesnya e encontrar outro caminho. Embora não suportasse olhar para sua irmã — nem mesmo ao colocar seu corpo na vala comum — ele sabia que destruir a Garota do Massacre deveria se tornar seu propósito de vida. Se tivesse que queimar a cidade inteira para encontrar o buraco de rato dela, ele o faria.

Somente quando o último corpo foi enterrado é que Kuma veio e encostou a cabeça em seu mestre. Só então Kuma insistiu que Ruzi reservasse um momento para o luto. Enquanto Ruzi envolvia seu lobo com os braços, desejou poder entregar-se à Alma do Mundo. Ele precisava de conforto, e sua voz interior dizia que ele o encontraria ali. Mas ele silenciou a voz instantaneamente. De pouco servira para Cecilee, lembrou a si mesmo. De pouco servira para os mortos.

Kuma ouviu o som primeiro. Suas orelhas se ergueram e ele choramingou. Ruzi ficou de pé instantaneamente, esperando um ataque. Mas não eram os Rakdos retornando. Nem batedores Gruul, embora estivesse esperando por eles. Era o som de um bebê chorando, subitamente acordado e muito sozinho, soluçando pela mãe.

O berço fora escondido sob uma mesa e atrás de algumas caixas na cabana de Cecilee. O bebê — seu sobrinho — acalmou-se quando ele o pegou gentilmente no colo. Um bebê Gruul. Um bebê que eles queriam de volta. Ele sabia que eles fariam de tudo pela criança, mas não a ponto de contratar os Rakdos para matar toda a comunidade. Quem quer que contratasse a Garota do Massacre era alguém da cidade propriamente dita, alguém que tinha moedas para desperdiçar com assassinatos.

Olhando para o rostinho doce do bebê, agora cochilando em seu ombro, ele soube como fazer outra pessoa se importar com a morte da Garota do Massacre.

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Ruzi encontrou o acampamento Gruul alguns quilômetros ao sul, no coração do Cinturão de Escombros. Mas a líder deles, Nikya dos Velhos Costumes, não permitiu que Ruzi passasse da entrada. Ladeada por uma dúzia de seus guerreiros, a líder Gruul indicou que deveriam sentar-se juntos no chão, um sinal bem-vindo de que ela estava disposta a ouvir o que Ruzi tinha a dizer.

Nikya era a líder do clã Zhur-Taa, uma das tribos Gruul que adoravam os deuses antigos da velha Ravnica. Ruzi não conseguia sequer adivinhar a idade dela. Tinha o físico musculoso de uma jovem lutadora, mas as cicatrizes de batalha de uma veterana. Linhas de expressão ramificavam-se dos cantos de seus olhos, que pareciam mais sábios que os de muitas das dríades anciãs de Vitu-Ghazi. Os muros de seu acampamento eram pilhas instáveis de ossos, cada um considerado uma oferenda aos deuses das profundezas da terra, que eles acreditavam estar sufocando sob o peso da cidade.

Arte de Aleksi Briclot
Arte de Aleksi Briclot

"Minha irmã não deveria ter levado seu primo bebê", disse Ruzi. "Foi errado. Mas ela o fez por compaixão e inocência."

"Inocência não é desculpa para ignorância", disse Nikya. "Nós não protegemos nossos filhos da dureza da vida."

"Minha irmã está morta, assassinada em sua casa. O sangue dela foi usado para fazer a marca Rakdos. Que isso satisfaça sua sede de sangue pelo erro grave dela."

"Sua irmã não estava marcada para morrer", disse Nikya. "Sangue é por sangue. Matar é por matar."

"Eles mataram o seu bebê!", disse Ruzi. "Eles esmagaram a cabeça dele contra as pedras. Eu mesmo enterrei o corpo."

"Quem fez isso?", perguntou Nikya. "Você os viu com seus próprios olhos?"

"Rakdos", disse Ruzi. "Todos os Rakdos são responsáveis pelo crime. Mas foi realizado por uma líder que se autodenomina Garota do Massacre. Ela é uma assassina de crianças em troca de moedas."

"Meus batedores voltaram do complexo", disse Nikya. "Vimos a escrita de sangue na parede. O que você diz é verdade. Aos meus olhos, todos os leais ao demônio são culpados de um crime de sangue contra os Gruul. Eles serão massacrados nas ruas onde vivem."

Depois que Ruzi deixou o acampamento, caminhou por quilômetros na escuridão da terra desolada. Sem seu lobo, achou o deslocamento tediosamente lento. Sentia-se como uma criança, tropeçando em raízes no escuro. Ruzi voltou sobre seus próprios passos várias vezes para se certificar de que não estava sendo seguido pelos Gruul.

Arte de Randy Gallegos
Arte de Randy Gallegos

Finalmente, alcançou a borda da cidade e escalou a parede de um edifício familiar. No topo, sob um telhado abrigado, seu lobo o esperava. A pata de Kuma estava enroscada protetoramente ao redor do bebê Zi, que se agarrava firmemente ao pelo macio de Kuma. Ruzi pegou seu sobrinho nos braços e acomodou-se contra seu lobo para passar a noite.

"Amanhã eu lhe mostrarei mais desta grande cidade", sussurrou para Zi. "E então a derrubaremos."

Rakdos contra Selesnya. Gruul contra Rakdos. Ruzi contra todos eles.

Jogos do Massacre

Maritta bateu a porta e baixou a travessa. Ela caiu com um baque surdo, trancando a porta da família e protegendo-os dos Rakdos lá fora. A guilda estava em desfile, enchendo as ruas com uma cacofonia terrível de correntes sendo arrastadas, gargalhadas loucas e gritos de agonia daqueles que foram apanhados em seu terrível carnaval marchante.

Maritta desabou e caiu de costas contra a parede, estendendo a mão para puxar seus dois filhos para perto. Ela sussurrou palavras reconfortantes para seus filhos aterrorizados, tentando tranquilizá-los de que estavam seguros agora contra os monstros que passavam pesadamente em frente à sua casa.

A multidão desfilava, cheia de um júbilo demente. Casas, negócios, templos e até edifícios governamentais fecharam e trancaram suas portas à medida que a vanguarda dos Rakdos se aproximava. Era uma procissão terrivelmente longa, composta por quase todos os postos da guilda Rakdos.

Andarilho de Correntes da Casa de Sangue | Arte de Dan Scott
Andarilho de Correntes da Casa de Sangue | Arte de Dan Scott

Em meio ao desfile sangrento, o carnaval estava a todo vapor com pernaltas com lâminas, um ato de correntes aéreas móveis, artistas de trapézio de voos altos com piercings pelo corpo e outras visões medonhas.

Cada membro de Rakdos exibia um sorriso assassino, estando delirantemente feliz, pois hoje marcava o início de seus Jogos do Massacre. A competição fora anunciada enquanto três dos círculos de Rakdos lutavam por um território recentemente desocupado e, para aproveitar ao máximo o conflito, ele foi colocado como prêmio para estes Jogos do Massacre.

Os Jogos do Massacre consomem a guilda pelo tempo que for necessário, até que os vencedores permaneçam ensanguentados, mas vitoriosos. Apenas uma fração dos seguidores de Rakdos entra nos jogos; fazê-lo é colocar a vida e os membros em risco. Eles voluntariamente arriscam suas vidas pelo espetáculo dos jogos por devoção ao seu líder demoníaco.

Darux fora um campeão Espancador por quatro anos de Jogos do Massacre — embora os jogos não sejam anuais, então ele fora na verdade um vencedor por sete Jogos do Massacre, até o ano passado, quando foi destronado por uma novata do círculo da Garota do Massacre: Vildika. Uma humana alta e de músculos firmes, que desferiu o golpe fatal em uma vítima particularmente ágil que esquivara do golpe mortal do martelo de Darux, apenas para ser pega por uma das botas laminadas de Vildika em um chute giratório gracioso. Darux viu-se derrotado e Vildika foi coroada campeã dos jogos daquele ano.

O antigo mestre de círculo de Darux era o muito incomum Stroko, um goblin que se dedicava a Rakdos. Stroko fizera bom uso de Darux como um Espancador; ele mantinha a pouca paz que beneficiava Stroko e causava o caos que promoveria os objetivos de Stroko. Depois que Darux foi derrotado, ele se tornou inútil para Stroko, que, com grande escárnio, insultou Darux em meio a um banquete dos Jogos do Massacre. Darux, indignado, levantou-se tão rapidamente que derrubou a mesa do banquete, espalhando comida e bebida por toda parte. Ele arrancou seu colete que ostentava o sigilo do círculo de Stroko e o jogou no chão antes de sair enfurecido.

Ele começaria seu próprio círculo.

Mestre de Círculo Rakdos | Arte de Jason Felix
Mestre de Círculo Rakdos | Arte de Jason Felix

Ele deixou a tenda sozinho. Muitos se irritaram com o mau tratamento dado a Darux, mas nenhum fora indignado o suficiente para segui-lo durante sua saída do círculo de Stroko. Levou algumas semanas, mas ele formara seu próprio círculo iniciante. Darux lutara por território e conquistara um nicho não muito longe dos terrenos do festival.

Finalmente, os Jogos do Massacre chegaram mais uma vez e Darux agora marchava em frente à porta de Maritta, com seu círculo marchando ao redor dele. Ele usava um colete com um sigilo próprio em seus ombros largos. Ele pendurava correntes de seu status ao redor de seus ombros, usando elos grandes para intimidar todos que contemplassem sua estrutura já maciça. Além disso, carregava seu martelo com espinhos em um ombro, com a outra mão conduzindo as correntes dos suplicantes de seu círculo.

Darux pode ser um espancador, um titã com piercings que se agiganta sobre os membros de seu círculo, mas ele descobrira que também tinha uma boa mente para negócios. Por mais zangado que estivesse com o insulto de Stroko, ele aprendera muito com ele. Enquanto o caos e a frivolidade reinavam entre os postos do culto, eram os superiores que tinham a tarefa de gerenciá-los cuidadosamente para a prosperidade de todos. Cabia aos mestres de círculo organizar, financiar e deixar o carnaval continuar para agradar ao próprio Rakdos. E embora ele não aparecesse, todo mestre de círculo sabia que Rakdos observava esses jogos com interesse.

Por causa disso, Darux esperava ver seu círculo elevado depois que eles se provassem nos Jogos do Massacre.

Apenas algumas semanas atrás ele recrutara Vildika do círculo da Garota do Massacre. Ela caminhava ao lado dele agora, com a cabeça erguida orgulhosamente. Ela usava um vestido justo e decotado com fileiras de piercings em suas feições delicadas. Em apenas essas poucas semanas desde sua chegada, Vildika provara ser uma aliada valiosa e confidente nos assuntos do círculo, e ele se vira apaixonado por ela.

Júbilo Desviante | Arte de Michael C. Hayes
Júbilo Desviante | Arte de Michael C. Hayes

Como mestre de círculo, Darux decidira, com relutância, não competir, permitindo em vez disso que Vildika representasse seu círculo nos jogos. Ele se irritava ao pensar que seria um espectador este ano, mas também sabia que era para o melhor. Ele estava ganhando a aprovação de Rakdos através de seu trabalho fora da arena agora.

À medida que o enorme arco de entrada para os terrenos do festival se aproximava, ele olhou através do arco alto e viu o que parecia ser uma cachoeira de sangue. Animais, humanos, centauros e talvez até tritões — qualquer ser que tivesse sido apanhado nas atividades pré-jogo — eram agora usados para dar as boas-vindas aos seguidores de Rakdos aos Jogos do Massacre. Darux agarrou o martelo com espinhos em seu punho maciço e o ergueu acima da cabeça enquanto seu círculo entrava nos terrenos, cercado por gritos e vaias.

Embora os jogos fossem apenas para os de vontade mais forte, eles atraíam inúmeros espectadores. Eles ficavam na borda dos terrenos, prontos para recuar e se espalhar por medo de subitamente se tornarem o mais novo brinquedo nos jogos. Todos vieram para ver os jogos horripilantes conforme se desenrolavam, e nunca se decepcionavam.

Viralata de Fúria Rakdos | Arte de Ryan Barger
Viralata de Fúria Rakdos | Arte de Ryan Barger

Darux conduziu seu círculo para a área que escolhera para o acampamento, orientando-os sobre onde montar suas tendas e martelar as estacas. Assim que a procissão terminou e todos os vários círculos se estabeleceram, a noite caiu sobre Ravnica. Os terrenos da feira foram iluminados por inúmeras fogueiras, e a guilda normalmente barulhenta e cacofônica silenciara-se um pouco enquanto se preparavam para os jogos no dia seguinte.

Os outros membros do círculo haviam partido e restavam apenas Darux e Vildika sentados juntos perto da fogueira. Darux afiava seu martelo com espinhos antes de batê-lo contra a carcaça remanescente da besta que fora o jantar deles, testando sua ponta. Vildika removera as botas e estava reclinada ao lado dele, picando os dedos distraidamente enquanto observava o sangue brotar.

"Você sente falta da Garota do Massacre?", Darux perguntou inquisitivamente entre os movimentos da pedra de amolar. Ele estava honestamente curioso. Ela se juntara a ele de boa vontade, mas ele sabia também que elas foram próximas por muitos anos. "Quero dizer, dela e do círculo dela."

Mostrando pouca emoção, Vildika respondeu: "Raramente." E após uma pausa momentânea, acrescentou: "Juntei-me ao seu círculo porque ficou claro que ela não me via mais como nada além de uma combatente nos jogos, um troféu. Eu era o troféu dela para desfilar, não uma integrante para compartilhar o carnaval." A emoção infiltrara-se em sua voz enquanto falava, a raiva misturando-se com a tristeza.

Darux considerou a resposta dela; não era surpreendente. Era comum que os mestres de círculo pegassem seus vencedores dos Jogos do Massacre e os elevassem em um estrado. Stroko fizera o mesmo com ele por anos, mas naquelas épocas ele gostava disso. Ele era celebrado, conhecido, e tinha o que quer que desejasse — exceto proximidade com qualquer pessoa além de Stroko. Oh, certamente ele tinha companheiros para desfrutar dos carnavais e circos sangrentos, e nunca lhe faltou muito, mas ele tivera bastante tempo para refletir sobre quem fora e comparar com quem era agora.

"Você está pronta para competir amanhã?" Darux ainda não conseguia esconder o fato de que desejava estar na competição.

A risada aguda de Vildika ressoou pelas tendas do círculo: "Você viu os espancadores dos outros círculos? São patéticos. Até Erzadalt, aquele brutamontes que Reneir vem preparando há anos. Ele mal está pronto e eu o derrubarei sem preocupação. Quase não parece esportivo desta vez." Ela picou seu dedo indicador em três movimentos rápidos, observando o sangue brotar antes de escorrer pelo dedo até a palma da mão.

Jogos do Massacre | Arte de Steve Prescott
Jogos do Massacre | Arte de Steve Prescott

Darux assentiu; ele se sentira da mesma forma por muitos anos, completamente confiante em sua vitória. E mesmo na última vez ele estivera confiante em sua vitória, pelo menos até Vildika surpreender a todos.

"Quanto você apostou em mim?" A curiosidade era clara em sua voz. Mestres de círculo sempre faziam apostas uns com os outros sobre os jogos, às vezes por dinheiro, às vezes por pessoas e às vezes por promessas.

"Mais do que apostei em qualquer outro." Darux apostara em todos os seus combatentes e participantes dos jogos, mas apostara a maior parte do estoque de seu círculo em Vildika. Um movimento com o qual seus tesoureiros não ficaram nada satisfeitos.

Vildika picou o dedo mais uma vez e cerrou os dedos ensanguentados em um punho. Ela se permitiu sorrir. Amanhã, os jogos finalmente começariam.

A Grande Confluência

As três dríades sentavam-se em círculo, como haviam feito nos últimos três meses, esperando conseguir contato. Elas faziam isso sozinhas, em um pequeno bosque onde os galhos das árvores se curvavam sobre elas para criar um espaço interior silencioso, à parte dos enormes edifícios de granito e tijolo que se estendiam ao redor delas como um antigo golem caído.

Elas acordaram de seu transe e permitiram que o mundo voltasse ao foco — o vento sussurrando entre as folhas; o canto curto de um pássaro; e o zumbido constante e distante de Ravnica e seus habitantes movendo-se como um oceano sem fim.

Vinha de Portão | Arte de Trevor Claxton
Vinha de Portão | Arte de Trevor Claxton

Eram um trio inseparável, mas longe de serem idênticas. Oba era selvagem e cheia de vida, seu cabelo emaranhado com folhas e videiras, seus olhos mudando conforme seu humor — de verde como lascas de esmeralda e jade a um marrom esfumaçado. Ses, ao contrário de sua irmã, era ordenada no modo e na fala; seu cabelo era mantido no lugar por um adorno de cabeça feito de madeira-dourada e caía sobre seus ombros em uma cascata de castanho. Cim era a mais velha e a ponte entre as outras duas irmãs; embora fosse uma dríade pequena e frágil, existia nela um poder que todos no Conclave podiam sentir. Cim conseguia encontrar caminhos onde nenhum podia ser visto e sempre encontrava uma maneira de equilibrar as necessidades de uma com as da outra.

Cim foi a primeira a falar.

"Eu estava perto. Muito perto desta vez, mas é tão confuso. Ela está lá naquela teia gigante, eu sei disso. É como se ela não conseguisse se concentrar... ou eu não conseguisse me concentrar." Cim passou seus dedos delgados pelo cabelo curto e puxou um capuz verde sobre a cabeça para fechar o mundo exterior.

"Nós vimos também...", disse Oba, olhando para sua outra irmã, Ses, que terminou a frase. "...mas é grande demais." Elas deitaram-se na grama, deixando o frescor trazê-las mais para fora do transe. Cim olhava para o horizonte, o queixo apoiado nos joelhos.

"Temos que alcançá-la", disse Cim. "Ou ela nos deixará a todos."

"Está ficando perigoso", disse Ses.

"Foi mais difícil trazer vocês de volta desta vez", ecoou Oba.

"Toda Selesnya conta conosco e não podemos falhar com eles." Cim franziu a testa. "Não podemos deixar a guilda se dissolver. Não podemos desistir dela."

"E se ela não quiser ser trazida de volta, Cim?", perguntou Ses. "Alguma de nós é forte o suficiente para ir contra a vontade dela?"

"E se for um teste?" Oba olhou para as irmãs. "Talvez ela queira algo de nós."

Após um momento de silêncio, um entendimento invisível passou entre as irmãs. Cim levantou-se.

"Suniel vai querer saber o que vimos."

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Suniel sentava-se entre os sumos sacerdotes de Selesnya e podia ver isso escrito em seus rostos. O elo empático da Alma do Mundo expunha, de sua maneira sutil e não verbal, uma verdade da qual não podiam fugir: Mat'Selesnya estava desaparecendo inexoravelmente como a luz de uma vela que se apaga.

Depois que os primeiros relatórios sombrios de mais membros perdidos, crença minguante e rumores de facções foram ouvidos pelos membros, o sacerdote elfo Molander levantou-se lentamente e dirigiu-se à assembleia. Ele parecia exausto para um elfo, pensou Suniel, mas, por outro lado, Molander sempre parecera exausto.

"Temos que pensar o impensável", disse Molander em sua maneira ordenada e objetiva. "Por mais que queiramos continuar desejando que algum milagre aleatório caia do céu, temos que nos preparar. Selesnya deve continuar com ou sem nossa parun, Mat'Selesnya." Molander esperou um momento para que suas palavras fizessem efeito enquanto um assistente trazia um pergaminho ornamentado para a mesa. "Desde o ataque a Vitu-Ghazi, comecei a trabalhar em uma maneira de manter a guilda viva ensinando nossos preceitos em uma academia. Um lugar onde a estrutura e o ethos da nossa guilda possam ser ensinados, refinados e levados adiante por futuros membros de nossa—"

"E agora isso vem à tona!" Troslon levantou-se e plantou seus punhos como rochas sobre a mesa. "Você mal pode esperar para impor sua redezinha de regras sobre todos nós." Ele virou-se para os outros. "Onde há vida, há Selesnya, e isso é tudo o que qualquer pessoa nesta guilda precisa saber. Se você quer regras e academias, vá para os Azorius."

Jardim do Templo | Arte de Volkan Baga
Jardim do Templo | Arte de Volkan Baga

"Não regras, Troslon. Ordem." Molander respondeu no tom de quem já teve essa mesma discussão com a mesma pessoa centenas de vezes. "Nossa guilda está se desfazendo. Membros estão saindo. Até nossos mais devotos estão perdendo a conexão com a Alma do Mundo. Precisamos de algo para construir ao redor. Algo tangível."

"Vou te mostrar o que é tangível", trovejou Troslon, fechando um punho maciço.

"Falou como um Gruul", retrucou Molander. "Você nos faria viver em escombros dentro de um ano."

"Cavalheiros", disse Alcarus, alto o suficiente para atrair a atenção um do outro. "Se vocês se esqueceram, não faz muito tempo arrastaram Rakdos pelas ruas como um indrik abatido e o jogaram em um poço infernal sangrento. Ninguém sabe se ele está vivo ou morto. Por que aqueles maníacos conseguem se resolver e nós ficamos sentados aqui trocando insultos?"

"Se você acha que correr como uma matilha de cães selvagens enquanto canibalizam uns aos outros é 'se resolver'", disse Sadruna, "então, por todos os meios, use-os como modelo de sucesso." Seu rosto tinha uma expressão que enfatizava seu ponto de vista. "Não somos nada parecidos com aqueles assassinos."

Suniel observava enquanto os velhos argumentos inevitavelmente começavam a surgir. O alto conselho começou a se dividir em facções que discutiam segundo linhas de discórdia bem conhecidas — aqueles que eram a favor do retorno à natureza, permitindo que as árvores crescessem selvagens e adorando os antigos ritos da vida, e aqueles que eram a favor da ordem, garantindo que a manutenção da estrutura da guilda fosse primordial. Enquanto a discussão degenerava no ruído emocional de confusão e justiça própria, Suniel suspirou e olhou pela janela para uma colina arborizada ao longe, cercada por picos e torres — um lugar pequeno e insignificante onde três jovens dríades buscavam fazer contato com um dos seres mais antigos de Ravnica.

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A casa de Suniel era uma obra-prima escultural. Em meio aos tijolos angulares e bordas duras da arquitetura ravnicana, as curvas sensuais e o fluxo orgânico da casa de Suniel a faziam parecer algo de outro mundo. Suniel moldara sua casa a partir de vários cedros próximos, dobrando e chamando o material para crescer de maneiras particulares agradáveis aos olhos e ao toque. Dizia-se que a casa de Suniel era uma representação visual da Trama da Alma do Mundo — a energia empática que conectava toda Selesnya — mas o moldador de madeira mantinha humildemente que apenas seguia a orientação silenciosa de Mat'Selesnya ao criar suas obras.

Cim sentava-se em uma cadeira confortável grande o suficiente para acomodar a ela, Oba e Ses. As três dríades pareciam pálidas, mas resolutas, enquanto bebiam chá feito de arame-selvagem e raiz de pális. "Eu estava perto dela, Suniel. Podia senti-la lá dentro, como se estivesse presa em uma teia, mas parece que não consigo chegar perto o suficiente para tocá-la. Sinto como se estivesse mergulhando em busca de conchas e ficasse sem ar."

Libertação do Druida | Arte de Dan Scott
Libertação do Druida | Arte de Dan Scott

"Não conseguimos mantê-la lá por tempo suficiente", disse Oba sobre sua xícara de chá. "A Trama está muito longe. Não temos energia para levá-la até lá."

"Vocês precisam de mais mana", disse Suniel, puxando pensativamente a barba e olhando para os jardins cuidadosamente esculpidos que cercavam sua casa. "É só isso. Tem que haver um caminho."

Após um silêncio, Ses perguntou: "Por que ela não volta?"

Suniel virou-se e sentou-se. "Pode ser por muitas coisas, Ses. Ela pode estar perdida. Pode estar morrendo, embora eu duvide muito disso. Talvez seja um ciclo de fluxo e refluxo que somos vividos demais para entender. Meu próprio sentimento é que ela quer estar lá e está esperando por nós."

"Um teste!", interveio Oba. "Foi o que eu pensei." Ela recostou-se na cadeira.

"Esperando?" Ses parecia intrigada. "Esperando pelo quê?"

"Eu não sei, mas também sinto que é um teste para nossa guilda." Oba sorriu e cutucou a irmã com o cotovelo enquanto Suniel continuava. "O caos reina em Ravnica. As guildas estão em desordem. Algumas colapsaram, e nossa própria guilda está se fragmentando por causa de... estupidez. Se ao menos pudéssemos verdadeiramente nos unir como nossa parun nos instruiu. Se ao menos pudéssemos aproveitar o poder que está ao nosso redor, mas sem a liderança dela, estamos nos dividindo em visões separadas do que Selesnya é."

Suniel mergulhou em pensamentos e Cim o observava enquanto suas irmãs cochilavam. Ela o viu pegar um pedaço de madeira e começar a imbuí-lo com mana, moldando-o como um oleiro faria com um pedaço de argila. Após uma hora disso, e com os próprios olhos de Cim se fechando, Suniel finalmente olhou para cima.

"Tenho uma ideia", disse ele, segurando seu pedaço de madeira diante do nariz de Cim. "A chave para ser um moldador de madeira é permitir que as linhas se confundam entre você e o que você está criando. Enquanto estou esculpindo, a madeira e minhas mãos tornam-se misturadas de modo que não há ponto onde a madeira termina e onde minhas mãos começam. Quando isso acontece, estou na verdade extraindo poder da força vital da madeira e usando isso para me ajudar a moldá-la. Se eu conectasse vocês a uma árvore desta maneira, poderiam extrair poder dela e usar esse poder para ajudá-las a ir mais fundo e tocar a Trama. Não haveria risco, carne e madeira não são tão dissimilares."

"Parece divertido", disse Oba, bem acordada.

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Cedo de manhã, antes mesmo que o sol pudesse ser visto acima dos edifícios imponentes, Suniel conduziu as irmãs por uma série de ruas e becos sinuosos que finalmente levaram a um caminho de paralelepípedos diante de um bosque de carvalhos. Eles entraram na mata e, depois de um tempo, sentiram como se não houvesse edifícios ao redor. Cim imaginou que estivessem cercados por quilômetros e quilômetros de florestas. Logo chegaram a um círculo de carvalhos particularmente velhos e retorcidos. Eles pararam e sentaram-se sob a copa enquanto Suniel se preparava. Após um momento, ele assentiu para Cim.

Floresta | Arte de Yeong-Hao Han
Floresta | Arte de Yeong-Hao Han

"Vocês estão prontas?", ele perguntou.

"Faremos o nosso melhor", respondeu Cim.

Após encantar um feitiço antigo conhecido apenas pelas dríades do Conclave, Cim, Ses e Oba entraram em transe. Uma vez que se firmaram nele, foram mais fundo e viram a Trama estendida diante delas.

"Estamos prontas. Vincule-nos a ela." Cim falou sem palavras, esperando que Suniel pudesse senti-las empaticamente através da Alma do Mundo.

Cim podia sentir Oba e Ses ao seu redor como ondulações na água. Podia sentir a excitação, apreensão e, acima de tudo, esperança de ambas. O que quer que acontecesse, elas estavam juntas. Era tudo o que importava.

Então a magia de Suniel fluiu para dentro delas. Enquanto ele vinculava as raízes das árvores a elas, Cim podia sentir a vida jorrar em seu ser. Como se em resposta, fios da Trama estenderam-se e começaram a tecer-se através delas como linhas brilhantes. A princípio houve um formigamento agradável enquanto os fios semelhantes a raízes se fundiam em sua pele, mas Cim começou a sentir uma pequena semente de pânico enquanto mais fios se entrelaçavam e começavam a puxá-las para mais perto da Trama. Ela podia sentir seu poder e uma sensação súbita de sufocamento surgiu dentro dela. Uma parte primitiva de seu cérebro lutava cegamente para se libertar daquela teia.

"Não consigo respirar..."

Então, em uma onda, milhões de gavinhas fluíram para Cim e inundaram sua consciência com um oceano de energia. Em um ato de desespero, ela estendeu a mão para as irmãs, esperando agarrar algo sólido na torrente estrondosa. De alguma forma, ela as encontrou, suas presenças vagas e borradas dentro da miríade de redes de fibras e luz. Podia senti-las, suas memórias, pensamentos e emoções. Elas se agarraram umas às outras enquanto a tempestade de energia soprava através delas. Após um momento atemporal, as vibrações desaceleraram e se harmonizaram. Ela olhou ao redor de dentro da rede da Trama, sentindo seu pulsar vibrante. Sua conexão estava completa.

E então, em uma voz tão clara quanto um sino de cristal, Mat'Selesnya falou.

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"Você mergulhou fundo, pequena semente. Pergunto-me se tem força para carregar o fruto da mensagem que tenho para lhe dar." A voz era como a de um grande sino, mas apenas uma teia de luz pulsava diante delas.

"Sim, Grande Mãe, carregarei qualquer fardo por vós", disse Cim para a Trama.

"Por muito tempo dormi dentro da Grande Árvore, falando sem palavras para ouvidos distantes. A ambição dos que não têm raízes provou-se poderosa demais. Para que minhas sementes sobrevivam, devemos criar um exército capaz de deter tais ambições. Até as do dragão conspirador."

"Eu as enraizarei na Trama. Como uma árvore cresce de uma semente, assim vocês extrairão exércitos da fonte de toda a vida. Vocês povoarão Selesnya com uma hoste sagrada disposta a perecer para que o bem maior possa prosperar."

Fileiras Crescentes | Arte de Seb McKinnon
Fileiras Crescentes | Arte de Seb McKinnon

"Toda a vida retorna à Trama. Não cobicem suas próprias vidas particulares como os negociantes de fantasmas cobiçariam uma bolsa de moedas. Não se contenham em seu sacrifício. Doem livremente ao todo e espalhem esta mensagem por toda parte."

"Completarei agora o trabalho do moldador de madeira e as vincularei a todas as árvores de Ravnica. Suas raízes serão o novo poder de Selesnya. Mas estejam avisadas, esta é uma porta pela qual vocês três nunca poderão retornar. Vocês entendem?"

Cim olhou para as irmãs. "Entendemos, Grande Mãe."

Sob os carvalhos, Suniel sentava-se com as três irmãs. Elas estavam aninhadas na base da grande árvore, com suas raízes vinculadas à carne delas. Ele podia sentir o pulso distante da Alma do Mundo, algum sentimento que não conseguia definir exatamente. Mas sabia, de alguma forma, que as dríades haviam feito contato com Mat'Selesnya. Uma grande excitação o dominou e ele examinou os rostos das irmãs em busca de qualquer sinal de que estivessem retornando de seu transe. No instante em que acordassem, ele as separaria das raízes do carvalho antigo, iria direto para o Conclave para uma sessão de emergência e, esperançosamente, contaria à assembleia a boa notícia do retorno da parun.

Enquanto Suniel imaginava a restauração de Selesnya, Cim arquejou e seus olhos se abriram. Quando ele começou a invocar o mana para libertá-las, Cim segurou seu braço.

"Não é necessário, moldador de madeira. Está feito." Cim sufocou as palavras. "Somos uma."

Como uma bola de serpentes contorcidas, as raízes começaram a envolver e absorver as dríades, suas formas pequenas sendo puxadas rapidamente em direção aos troncos. Suniel lutou para puxá-las, mas, apesar de sua magia, suas tentativas foram fúteis. Ele só pôde arranhar o emaranhado brilhante de membros e raízes e observar impotente enquanto as três irmãs desapareciam nos carvalhos.

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No grande salão dentro de Vitu-Ghazi, os sumos sacerdotes e dignitários de Selesnya estavam finalmente reunidos. Ali, crescidas da madeira viva da Árvore do Mundo, estavam as três dríades. Mais cedo naquele dia, elas haviam se materializado magicamente diante de uma multidão atônita, enviando um pulso por toda a Alma do Mundo para que se reunissem. Ninguém na guilda sentia tal onda há muito tempo e todos correram para o Conclave com grande esperança. Mal sabiam que contemplariam sua nova mestre de guilda pela primeira vez.

Quando Suniel chegou, reconheceu Cim, a figura central das três, mas assim que ela falou, percebeu que a Cim que conhecia não existia mais.

"Eu sou Trostani. Como uma demonstração do princípio fundador e do poder de nossa guilda, fomos além de nós mesmas e nos tornamos um único ser. Somos a Grande Confluência entre Mat'Selesnya e todos que seguem sua vontade. Viemos do coração da Trama para alterar o curso de Selesnya para sempre. Uma nova era de crescimento glorioso aguarda nossa guilda."

Os Dez Mais Procurados dos Azorius

#strong[Alinhamento de Guilda:] Nenhum

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Destruição de propriedade Azorius com propriedade Azorius; consumo de matéria vegetal senciente.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Antigamente de Selesnya

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Incêndio criminoso; uso de um lobo treinado como arma mortal; transporte de contrabando pelos telhados.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Golgari

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Canibalismo não ritualístico.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Desconhecido

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Roubo de moedas Orzhov; perturbação da vida selvagem.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Izzet

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Perturbação da ordem pública; destruição de propriedade; lançamento ilegal de humanoide.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Nenhum

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Uso ilegal de um portal; uso de um trul como dispositivo incendiário.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Orzhov

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Suborno; uso de esfera de detenção para fins outros que não a detenção.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Nenhum

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Abertura de Fenda Espacial sem licença.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Golgari

#strong[Crime Mais Recente:] #linebreak Plágio de estatutos Azorius para fins de flebotomia e assassinato.

#strong[Alinhamento de Guilda:] #linebreak Rakdos

#strong[Crime Mais Recente:] Todos eles.

Os Sete Sinos, Parte 1

== Conselho dos Izmagnus

=== Relatório de Registro

Micas Vay: Estamos protegendo você — por enquanto. Mas os Azorius estão exigindo justiça.

Bori Andon: Justiça por uma janela quebrada? Eu não sabia que catedrais tinham sentimentos tão sensíveis.

Micas Vay: Isso não é motivo de riso.

Bori Andon: Estou conduzindo uma pesquisa que me foi dada pessoalmente por Niv-Mizzet.

Micas Vay: Olhe ao seu redor. Esta câmara está cheia dos melhores e mais brilhantes de Ravnica. Seus objetivos não são mais grandiosos que os de qualquer um de nós. Apenas mais destrutivos.

Bori Andon: Você não está preocupado com alguns prédios danificados. Você se sente ameaçado pelo meu sucesso. Emoções tão baixas são ruins para a nossa causa, Primeiro Izmagnus.

Micas Vay: Você deve parar com essas exibições dramáticas. Deve parar de atrair o olhar dos legisladores. Bori Andon: Eu segui suas diretrizes!

Micas Vay: Baixe o tom de voz, Andon. Por ordem deste conselho, seus projetos atuais estão suspensos. A Mente de Fogo lhe atribuiu uma tarefa especial. Ela deve ser concluída antes que você possa retomar sua pesquisa pessoal.

Bori Andon: Que tarefa?

Micas Vay: Resolver o Teorema da Discordância Simultânea. Diversos: [Gritos, discussões...]

Bori Andon: Você não pode desviar minha pesquisa. Estou prestes a—

Micas Vay: Sente-se ou será removido das câmaras!

Bori Andon: Isso é um absurdo!

Micas Vay: É o chamado teorema insolúvel. Você está familiarizado com ele, Andon?

Bori Andon: É claro...

Micas Vay: A questão é a seguinte: Pode uma única pessoa tocar simultaneamente todos os sete sinos nas sete grandes torres de sino? Muitas grandes mentes tentaram, mas todas falharam. Dizem que é impossível. Você é astuto o suficiente para provar que estão errados?

Bori Andon: Você não tem autoridade!

Micas Vay: Isso vem diretamente da Mente de Fogo. Se não gosta, pode romper seus laços com os Izzet.

Bori Andon: Você é um bastardo, Vay! Isso é obra sua. Bem, eu provarei que você é um—

Micas Vay: Guardas! Removam este homem das câmaras. Diversos: [Gritos, discussões... guardas escoltam Andon para fora da câmara]

Micas Vay (dirigindo-se ao conselho): Bem, ele se foi. O ego dele falará mais alto e ele tentará resolver. Pelo menos isso o manterá longe de encrencas, por enquanto. E qual é o pior que pode acontecer? Todos os sete sinos tocarão.

Diversos: [Risos...]

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Previsão da Mente de Fogo | Arte de Dan Scott
Previsão da Mente de Fogo | Arte de Dan Scott

== O Diário de Bori Andon: Dia Um

Acordei com o som dos carrilhões. Da janela do meu quarto, posso ver duas das sete grandes torres de sino do Bairro Kalnika. Cresci aqui e ouço os sinos todas as manhãs desde que nasci. Ao amanhecer, os sinos compartilham uma harmonia, mas cada corda é puxada por um sineiro diferente. Como um homem poderia tocar todos os sete de uma vez? Esta é a tentativa do conselho de me humilhar. Eles me incumbem de um problema "insolúvel". Bem, eu vou mostrar a eles. Nada é insolúvel.

Apesar do meu humor sombrio, os sinos são surpreendentemente belos. Em meu meio-sono, imaginei-me em uma sala imensa cheia de escadarias que não levam a lugar nenhum. Devo ter cochilado novamente. Em meus sonhos, percorri corredores vazios sem fim. Dobrei uma esquina e recuei diante da visão de um sentinela maciço sentado em um trono de prata. Seus olhos me seguiam, não importa a direção em que eu corresse.

O sonho é um presságio. Eles estarão vigiando cada movimento meu.

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Relatório do Observador

O sujeito nunca saiu de seu apartamento.

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== O Diário de Bori Andon: Dia Dois

Viajei por dois distritos para visitar um velho amigo, Zaba, que faz os melhores mapas de toda Ravnica. Como eu esperava, ele tinha mapas primorosos das Sete Grandes Torres de Sino. Seu trabalho é tão detalhado que eu podia praticamente ver os buracos de rato nas paredes. De repente, consigo dar sentido ao emaranhado confuso de passarelas elevadas, às pontes sobre rios inexistentes e às ruas de vários níveis que eu conhecia de cor, mas que nunca pudera quantificar.

Entre xícaras de chá, Zaba me entreteve com a lenda de Kalnika, um grande paladino de quem meu bairro herdou o nome. Senti-me como uma criança no colo do avô enquanto Zaba contava um conto da antiga Ravnica, quando um rei lich tiranizava o povo. O paladino ensinou aos camponeses uma série de códigos tocados nos sinos. Quando ouviam a sequência correta, sabiam que era hora de se levantar en masse e matar o tirano. Segundo Zaba, as torres têm uma ordem particular. Existe apenas uma rota pelo bairro que permite visitar as torres na sequência correta. Ele me deu um sorriso desdentado e disse que, se eu conseguisse encontrar o caminho certo, meu verdadeiro amor estaria me esperando na esquina.

Quando contei a ele sobre meu problema com o conselho, Zaba me deu os mapas sem custo algum. Ele disse algo sobre o significado estar na própria jornada e nos despedimos. Na rua, um homem de cabelos pretos me seguiu por três quarteirões. Não me surpreende que Vay tenha enviado um de seus capangas para me seguir. Bem, ele pode vigiar o quanto quiser. Não tenho nada a esconder.

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Relatório do Observador

Nosso interrogatório com o cartógrafo rendeu pouco mais do que já sabíamos. O sujeito continua buscando a solução para o Teorema da Discordância Simultânea.

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== O Diário de Bori Andon: Dia Três

Fiz um buraco na sola do meu sapato, mas consegui. O comentário bobo de Zaba sobre o "caminho verdadeiro" me deu uma ideia. Descobri a rota singular que me leva a cada uma das torres de sino uma única vez. Foi um exercício fascinante na geometria do lugar, e a interconectividade deixou-me ao mesmo tempo exausto e esperançoso. Ugh, parece que ratos estão comendo a parte de trás dos meus globos oculares. Preciso dormir.

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Relatório do Observador

Caminhando. Caminhando. E mais caminhando. O sujeito fala sozinho. Ele parece confuso e frequentemente preocupa os transeuntes com sua agitação e correria. Realmente não achamos que o Teorema corra o risco de ser resolvido. Solicito reatribuição.

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== O Diário de Bori Andon: Dia Cinco

Meu Hipno-imageador está concluído. Concebi uma maneira de transferir o "caminho verdadeiro" no espaço tridimensional, acomodando obstáculos naturais e as informações históricas que recebi do cartógrafo. Isso me permitirá encontrar o centro perfeito onde estarei equidistante de cada sino. Calibrei o imageador para que eu possa transmitir ondulações sonoras, que atingirão os sinos e farão com que toquem simultaneamente. Mal posso esperar para ver a cara de Vay.

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Relatório do Observador

O sujeito saiu de seu apartamento carregando uma caixa de latão com cabos conectados a grandes recipientes de vidro amarrados às suas costas. Os recipientes continham algum líquido azulado e névoa. O sujeito dirigiu-se ao centro do Mercado Aberto de Kalnika. Conhece aquela estátua enorme de um centauro? Bem, ele subiu nela e sentou-se como se estivesse prestes a cavalgar. Depois ficou mexendo em sua engenhoca por uma eternidade. As pessoas olhavam para ele como se tivesse enlouquecido (eu acho que ele enlouqueceu). Em certo ponto, uma luz azul disparou do dispositivo, mas nada mais aconteceu.

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== O Diário de Bori Andon: Dia Oito

Quando essa dor de cabeça vai parar? Até o menor ruído parece um assalto. Meu Hipno-imageador falhou, mas eu sei por quê. Na minha próxima tentativa, devo usar elementos já existentes no ambiente. O próprio ar é a resposta! O vento será meu cúmplice invisível. Recalibrei o imageador com sucesso. Meu novo dispositivo, o Hipnoexplusor, sugará um volume maciço de ar para dentro e depois o expulsará em um padrão radial, fazendo os sinos dobrarem. Estou um pouco preocupado com o deslocamento desse volume de ar. Antevejo que os moradores sentirão uma brisa leve a moderada, e nada mais. Não posso perder tempo fazendo testes. A Mente de Fogo está esperando.

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Relatório do Observador

As suspeitas sobre a sanidade do sujeito foram confirmadas. Ele está sentado no centauro novamente. E tem um novo dispositivo. Ainda possui a caixa de latão e os recipientes de vidro. Mas agora há um componente semelhante a um chapéu. E por chapéu, quero dizer uma pilha imensa de fios de cobre e canos. Ele está mexendo na caixa. Há um som estranho de sucção. Huh, o lixo nas sarjetas começou a flutuar. Tenho um mau pressentimento sobre isso.

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== Relatório de Incidente Azorius

Logo após os relógios baterem nove horas, os moradores do Bairro Kalnika relataram uma brisa forte em um dia que, de outra forma, estaria calmo. A brisa intensificou-se e estilhaçou quase todas as janelas do bairro. Os vidros quebrados e detritos coalesceram perto da Cúpula da Pomba Negra. Abruptamente, transformaram-se em um ciclone cilíndrico de cacos de vidro e continuaram a ganhar força. No auge, a tempestade de vidro era mais alta que a própria Cúpula. Moradores em um perímetro de três quarteirões foram evacuados. Uma força conjunta de magos de batalha trabalhou para conter e dispersar essa ameaça maciça. Seus esforços foram bem-sucedidos e não houve mortes relatadas no incidente. Os terrenos da Cúpula estão repletos de vidros quebrados, mas a estrutura em si foi salva.

Fenda Ciclônica | Arte de Chris Rahn
Fenda Ciclônica | Arte de Chris Rahn

== O Diário de Bori Andon: Dia Dez

Errado, errado, errado. Essa abordagem provou-se infrutífera e os sinos não tocaram. Para complicar as coisas, o homem de cabelos pretos estava me vigiando novamente. Provavelmente está relatando meu fracasso ao conselho e todos estão dando boas risadas à minha custa. Além disso, pássaros não param de voar sobre minha cabeça. Ouvi dizer que pombos podem ser treinados como espiões. Vejo agora que o vento foi uma solução prosaica demais. Devo converter a energia dos pensamentos das pessoas e propeli-la para as Grandes Torres de Sino, fazendo assim os sinos tocarem. Qual é o peso de um pensamento? Quanta energia o cérebro de uma pessoa emite?

Recalibrei o imageador novamente. Este dispositivo — a Hipnooblatriz — coletará e condensará todos os pensamentos nas proximidades das torres de sino. Transmitirei então a energia convertida desses pensamentos diretamente para a torre de sino, fazendo soar todos os sinos simultaneamente. Os afetados sentirão um formigamento no lobo frontal... ah, esqueça isso. Não tenho ideia do que eles experimentarão.

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Relatório do Observador

Eles nem terminaram de limpar os vidros ainda e ele já voltou. Está carregando outro dispositivo. Percebo que é novo porque o chapéu é ainda mais alto. A julgar pelo rosto dos transeuntes, está emitindo vapores de cheiro horrível. Solicito permissão para deixar o posto. Vou descer para observar de uma distância segura.

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== Relatório de Incidente Azorius

Um ataque mental em massa acaba de ser lançado no Bairro Kalnika. Houve relatos generalizados de perda de memória, desorientação e sangramento pelos ouvidos. Suspeito ou suspeitos ainda foragidos.

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== O Diário de Bori Andon: Dia Dez, Adendo

A Hipnooblatriz falhou em tocar os sinos. Mas algo incrível aconteceu em vez disso. Ativei o dispositivo e as pessoas caíram no chão como bonecas de pano. Conforme planejado, transmiti a energia coletada em direção às torres de sino. Inesperadamente, vi centenas de linhas brilhantes cruzando o ar como fios metafísicos. Devido à minha localização, pude ver que cada linha cruzava com as grandes torres de sino. O que poderiam ser? Linhas de fronteira? Condutos? Sensores? O que é essa loucura?

Estou aterrorizado com as implicações. Descobri algum tipo de canais secretos de Éter correndo por todo o bairro. As torres de sino são pontos de nexo. Talvez Niv-Mizzet tenha me incumbido do teorema não como punição, mas para descobrir este segredo desconcertante. Eu estava destinado a encontrar isso, mas o que foi que eu encontrei?

Continua...

Os Sete Sinos, Parte 2

== O Diário de Bori Andon, Dia Dez

Errado, errado, errado. Essa abordagem provou-se infrutífera e os sinos não tocaram. Para complicar as coisas, o homem de cabelos pretos estava me vigiando novamente. Provavelmente está relatando meu fracasso ao conselho e todos estão dando boas risadas à minha custa. Além disso, pássaros não param de voar sobre minha cabeça. Ouvi dizer que pombos podem ser treinados como espiões. Vejo agora que o vento foi uma solução prosaica demais. Devo converter a energia dos pensamentos das pessoas e propeli-la para as Grandes Torres de Sino, fazendo assim os sinos tocarem. Qual é o peso de um pensamento? Quanta energia o cérebro de uma pessoa emite?

Recalibrei o imageador novamente. Este dispositivo — a Hipnooblatriz — coletará e condensará todos os pensamentos nas proximidades das torres de sino. Transmitirei então a energia convertida desses pensamentos diretamente para a torre de sino, fazendo soar todos os sinos simultaneamente. Os afetados sentirão um formigamento no lobo frontal... ah, esqueça isso. Não tenho ideia do que eles experimentarão.

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Relatório do Observador

Eles nem terminaram de limpar os vidros ainda e ele já voltou. Está carregando outro dispositivo. Percebo que é novo porque o chapéu é ainda mais alto. A julgar pelo rosto dos transeuntes, está emitindo vapores de cheiro horrível. Solicito permissão para deixar o posto. Vou descer para observar de uma distância segura.

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== Relatório de Incidente Azorius

Um ataque mental em massa acaba de ser lançado no Bairro Kalnika. Houve relatos generalizados de perda de memória, desorientação e sangramento pelos ouvidos. Suspeito ou suspeitos ainda foragidos.

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== O Diário de Bori Andon, Dia Dez, Adendo

A Hipnooblatriz falhou em tocar os sinos. Mas algo incrível aconteceu em vez disso. Ativei o dispositivo e as pessoas caíram no chão como bonecas de pano. Conforme planejado, transmiti a energia coletada em direção às torres de sino. Inesperadamente, vi centenas de linhas brilhantes cruzando o ar como fios metafísicos. Devido à minha localização, pude ver que cada linha cruzava com as grandes torres de sino. O que poderiam ser? Linhas de fronteira? Condutos? Sensores? O que é essa loucura?

Estou aterrorizado com as implicações. Descobri algum tipo de canais secretos de Éter correndo por todo o bairro. As torres de sino são pontos de nexo. Talvez Niv-Mizzet tenha me incumbido do teorema não como punição, mas para descobrir este segredo desconcertante. Eu estava destinado a encontrar isso, mas o que foi que eu encontrei?

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Amuleto Izzet | Arte de Zoltan Boros
Amuleto Izzet | Arte de Zoltan Boros

Relatório do Observador

Bem, estou chocado. Estupefato. Não sei o que dizer. Aquele charlatão conseguiu. Ele não tocou os sinos, mas encontrou nossos condutos secretos! Ele revelou nossa rede telepática, incluindo o uso das grandes torres de sino como nós transmissores. Precisamos botar as mãos naquele dispositivo e matá-lo rapidamente. Toda a operação Kalnika está ameaçada.

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== O Diário de Bori Andon, Dia Doze

Escrevo isto em uma pensão imunda na borda do bairro. Voltei e encontrei intrusos no meu laboratório. Eles me capturaram no saguão e continuaram saqueando meu equipamento. Usavam máscaras e luvas grossas e cheiravam a mofo. Um deles estava com minha Hipnooblatriz e não parava de exigir informações sobre como ela funcionava.

Eles pretendiam me sequestrar. Talvez me matar. Mas fui salvo por uma dupla de investigadores Boros que apareceu na minha porta, e os dois lados entraram em combate. Em meio ao caos e ao fogo, peguei meu diário e meu imageador reserva e escapei pela porta secreta.

Instalei-me aqui neste quarto deplorável destinado a ladrões e meliantes. Já providenciei os componentes de que preciso para recalibrar meu dispositivo. Agora que meus inimigos mostraram suas cartas, percebo o que eu deveria ter feito o tempo todo. Niv-Mizzet não queria apenas que eu encontrasse os canais. Ele queria que eu os destruísse.

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Sombra Perigosa | Arte de Clint Cearley
Sombra Perigosa | Arte de Clint Cearley

Relatório do Observador

Estávamos no apartamento de Andon, mas alguns Boros que investigavam o ataque mental em massa chegaram inesperadamente. Enquanto os silenciávamos, Andon escapou por uma porta secreta. Quem sabe o que ele está planejando fazer? Todos os agentes devem se concentrar em encontrá-lo. E alguém, por favor, traga um executor? Isso está saindo do controle.

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Arte de Slawomir Maniak
Arte de Slawomir Maniak

== O Diário de Bori Andon, Dia Treze

Escrevo isto de um cano imundo perto de uma entrada para a subcidade. Meus inimigos estão em toda parte. Eles pretendem me matar. Temo que estejam na minha cabeça, distorcendo cada pensamento meu. Devo escrever os eventos das últimas horas para nunca esquecer. Não posso permitir que me manipulem. O conselho deve ouvir esta notícia. Sim, o próprio Micas Vay. Devo avisá-los de que estamos todos em perigo.

Concluí um novo dispositivo projetado para destruir os canais de Éter — para varrê-los do mundo com fogo. Nos momentos seguintes à ativação do dispositivo, os canais brilharam, oscilaram e então explodiram. Fios de fogo percorreram as ruas. Inesperadamente, o céu escureceu com nuvens de tempestade. A terra tremeu sob minhas botas. Ao longe, a gloriosa Cúpula da Pomba Negra desmoronou como areia. A dor dentro do meu cérebro era intolerável, então virei-me e fugi.

Enquanto eu corria, algo atingiu minhas costas e caí no chão. Fui arrastado de pé novamente por um homem de olhos amarelos. Ele usava uma única luva com espinhos, e sua voz soava oca e irreal. Ele disse:

Você está causando muitos problemas para os Dimir.

O homem me arrastou através de uma porta vermelha e para dentro de uma passagem escura. Eu o ataquei ali, mas ele era forte além de qualquer expectativa. Ele me ergueu do chão pela garganta e me bateu contra a parede. Quando ele falou, pude ver a verdadeira natureza do meu inimigo — um vampiro.

E então ele invadiu minha mente. Disse-me para ouvir os sinos. Os sinos me dariam minhas ordens. Mas antes que ele pudesse infiltrar-se completamente em minha consciência, liguei o interruptor do imageador preso ao meu peito e disparei ondulações sonoras contra o monstro. Assustado, ele recuou e soltou minha garganta. Fugi pelas ruas em chamas, onde consegui despistá-lo no caos. Passarei a noite em uma lata de cinzas no telhado mais alto que encontrar. Rezo para estar alto o suficiente para evitar os sinos. Devo evitar os sinos. Devo evitar os sinos.

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Relatório do Observador

Andon escapou do executor. Mas é para o melhor, porque o executor poderia tê-lo comido. Agora que as notícias sobre as capacidades do dispositivo de Andon chegaram aos níveis mais altos, nossas ordens mudaram novamente. Não matem! Repito, não matem! Devemos subjugar e capturar. Bori Andon vai se tornar um de nós. Aprecio a ideia de um agente infiltrado nos escalões mais altos dos Izzet. Os loucos são sempre os mais fáceis de manipular.

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Veredito Supremo | Arte de Sam Burley
Veredito Supremo | Arte de Sam Burley

== O Diário de Bori Andon, Dia Treze

Escrevo isto de dentro de uma lata de cinzas no telhado de um cortiço. Perdoem minha caligrafia ruim, pois a luz que entra pelas frestas é fraca e o ar está carregado de poeira.

Eles estão me seguindo. Suas sombras são códigos uns para os outros. Há uma sentinela me zombando em cada telhado. Mas eles não podem agir porque meus ouvidos estão cheios de seixos e cola! Não podem me atrair com aqueles sinos malditos. Devo chegar a Nivix. Devo encontrar o dragão e dizer-lhe que fui corrompido. Mas as ruas não fazem mais sentido. Continuo me encontrando em uma ponte que não posso atravessar. Não importa para onde eu vire, vejo-me de frente para a outra direção e caminhando pelo caminho de onde acabei de vir. É o limite de uma hora. Hora de os sinos começarem a tocar. Se eu ouvir os carrilhões, meus inimigos assumirão o controle da minha mente e eu me perderei para sempre.

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== Relatório de Incidente Azorius

Todos os sinos nas proximidades do Bairro Kalnika tocaram de uma vez. Houve queixas generalizadas de perda de audição, dores de cabeça e desorientação. Os sinos tocaram com tanta força que vários foram partidos ao meio. Três das grandes torres de sino foram danificadas pelas reverberações. Sob o Artigo 90903.35b, isso é classificado como um ato de malícia arcana, não um evento aleatório.

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== O Diário de Bori Andon, Dia Um

Comecei um novo diário. Vasculhei meu laboratório minuciosamente e, embora tudo esteja em ordem, meu diário antigo não se encontra em lugar nenhum.

Hoje, no conselho, fui recebido com uma ovação de pé. Os sete grandes sinos haviam tocado de uma vez, resolvendo assim o Teorema da Discordância Simultânea. Queriam saber como eu fiz, mas eu me esquivei. Não fui eu, insisti. Percebo que acham que estou sendo apenas modesto. Talvez eu os tenha tocado, mas honestamente não consigo me recordar.

Há poucos momentos, um mensageiro bateu à minha porta. Trouxe um pacote enviado por uma pessoa anônima. É um presente, é claro, porque hoje é meu aniversário. Dentro havia um delicado sino de prata com o tom mais encantador. Agora ele está pendurado no meu saguão. Espero que um dia eu possa agradecer ao meu admirador secreto.

Passagem do Ladino

Tanek acordou deitado de costas, sem camisa. O sol, mascarado pela fumaça, já estava alto no céu, e o cano de exaustão ao seu lado soltava um longo jato de vapor.

Ele olhou ao redor — os outros que dormiam no telhado já haviam partido há muito tempo. Ele verificou o bolso esquerdo em busca de sua bolsa de moedas, tateou atrás da cabeça para sentir sua camisa enrolada e sentiu, através do buraco no bolso direito, a navalha amarrada à sua perna. Tudo ainda estava lá. Bom.

Planície | Arte de Richard Wright
Planície | Arte de Richard Wright

O telhado fora um achado de sorte. Com tempo bom, era muito melhor do que dormir no chão e, quando chovia, havia uma saliência suficiente para se encolher embaixo. Aqueles que dormiam no telhado ocasionalmente trocavam truques, embora não com muita frequência. Ele gostava dali. Parecia seguro. Ou pelo menos o mais seguro que se podia conseguir.

O estômago de Tanek roncou e ele sentiu uma leve tontura. Pagar por comida era sempre decepcionante, mas trabalhar de estômago vazio era perigoso demais. Ele se sentou, vestiu sua camisa manchada de cinzas e despejou sua bolsa de moedas surrada no telhado. Alguém havia raspado as bordas de sua moeda de cinco zinos de fabricação Boros, mas não o suficiente para que a maioria das pessoas percebesse. Ele estava guardando aquela para uma emergência. As três moedas de um zino eram de cunhagem Azorius e de um design relativamente novo. O símbolo projetava-se mais alto da face do que nas moedas antigas; alguém com uma faca afiada e mão firme provavelmente poderia raspá-lo, embora ele ainda não tivesse visto ninguém tentar. Havia também algumas peças de cinquenta e vinte e cinco zibs. Ele poderia conseguir um espeto de carne grelhada e uma maçã por quarenta zibs. Teria que ser o suficiente para a manhã.

Ele desceu por uma escada quebrada na lateral do telhado, saltou para um toldo a alguns metros de distância e desceu até a rua. Era incrível que a maioria das pessoas não pensasse em tentar subir lá, mas, por outro lado, a maioria das pessoas não sabia que aquele beco existia. Ele trotou pelo beco até um beco sem saída, rastejou por um buraco na parede logo acima do nível do chão, espremeu-se entre dois arbustos e emergiu na rua.

Passagem do Ladino | Arte de Christine Choi
Passagem do Ladino | Arte de Christine Choi

Tanek seguiu pelas ruas movimentadas até o mercado do distrito da fundição. Uma avalanche de sons e cheiros, o mercado servia tanto como um local para os metalúrgicos sem guilda venderem seus produtos quanto um lugar onde seus ajudantes contratados podiam comprar o almoço. Era também uma espécie de paraíso para ladrões, embora não houvesse tantos batedores de carteira por perto a ponto de as autoridades prestarem atenção. Tanek conhecia a maioria deles, e alguns que viviam no telhado com ele já estavam trabalhando. Migen conversava com um homem alto enquanto Erika saía disparada segurando algo. Ivo estava agachado em uma sombra próxima, observando. Tanek sorriu e se misturou à multidão.

Não era bem hora do almoço, mas alguns trabalhadores em folga já estavam lá. Um grupo de goblins tagarelas em uniformes marrons se acotovelava ao redor de um vendedor de doces e um minotauro corpulento em um avental manchado de cinzas pechinchava com uma mulher que vendia frangos assados inteiros. Havia também alguns membros de guildas presentes, embora nesta parte não alinhada da cidade eles se destacassem como torres no horizonte. Um elfo vestindo verde e branco falava com um ferreiro e uma mulher vedalken com ar pretensioso nas cores Azorius negociava com um joalheiro. Havia também alguns patrulheiros Boros — pelo menos três que Tanek conseguia ver. Eles estavam observando alguém. Tanek preparou-se para fugir, mas eles não estavam olhando para ele.

Guarda do Arsenal | Arte de Karl Kopinski
Guarda do Arsenal | Arte de Karl Kopinski

Enquanto Tanek abria caminho pela multidão, o objeto de atenção da patrulha entrou em foco. Dois capangas Orzhov troncudos com cabeças raspadas estavam assediando Busa, o vendedor de frango favorito de Tanek. Todos os três homens falavam em voz alta, gesticulando, mas Busa estava claramente na defensiva. Alguém com uma cesta de frutas descoberta parou ao passar, distraído pela confusão. Tanek pegou uma maçã do topo e a guardou no bolso, depois deslizou em direção ao barulho.

Os bajuladores já haviam partido quando Tanek chegou lá, mas o resto da multidão ainda mantinha uma distância segura de Busa. Tanek aproximou-se com um sorriso tímido. "Um espeto."

"Vinte e cinco zibs. Pagando de verdade hoje, hein?"

Ele deu de ombros. "Não posso trabalhar de estômago vazio." Busa colocou um espeto de frango quase cozido na grelha. "E além disso, gosto da sua comida. O que foi aquilo?"

O rosto de Busa murchou. "Os capangas de Ambroz de novo."

Tanek fez uma careta enquanto entregava uma moeda a Busa. "Acho que você quis dizer os capangas do Mestre Benakov."

Busa riu, mas seus olhos traíam o medo. "Eles estão ficando mais ousados. Hoje dobraram a taxa e disseram que cortariam os dedos dos pés da minha filha se eu não pagasse em dia. E não estão fazendo isso só comigo." Ambos olharam para algumas barracas adiante, onde os mesmos dois capangas mantinham a mesma conversa com um vendedor de balas. "Imagino que isso também não seja bom para o seu tipo, com os Boros por perto."

Tanek pegou o espeto de carne. "Não. Gostaria de poder fazer algo a respeito." Um par de viashinos com olhos famintos aproximou-se deles. "Bem, até mais."

Ele sentou-se na calçada e começou a comer, saboreando cada mordida com os olhos semicerrados. Quando terminou a carne e começou a maçã, uma voz treinada perfurou o ruído da multidão. "Abram caminho, abram caminho!"

A multidão se abriu. Um guarda de armadura com uma sobrecasaca Orzhov veio primeiro, seguido por um homem gordo em mantos de seda preta e branca, seguido por uma mulher bonita e quase sem roupa que segurava um guarda-chuva sobre ele. Um servo calvo trazia a retaguarda e aproximou-se do homem gordo, gesticulando com a mão aberta. "Mestre Benakov, o mercador de doces sobre o qual o senhor perguntou é por aqui."

Pontífice Orzhov | Arte de Adam Rex
Pontífice Orzhov | Arte de Adam Rex

O homem gordo inclinou a cabeça para trás. "Leve-me até ele."

A procissão de preto e branco impecável passou por Tanek. Na barraca do padeiro, Benakov ficou examinando os doces em exibição por dois minutos inteiros antes de selecionar um. Ele deu uma mordida grande demais e o recheio de creme espirrou pelo seu rosto rechonchudo. Sua acompanhante com o guarda-chuva limpou-o com um pano enquanto ele mastigava, quase atingindo seu ridículo colarinho alto. "Oh céus, isto está muito bom." Ele deu outra mordida. "Você deveria comer um", disse ele ao servo, com a boca cheia. "É farntárstico."

O homem curvou-se como um fantoche. "Não estou com fome, mas obrigado."

"Muito bem. Vamos voltar para o meu escritório." O guarda virou-se, abrindo caminho de volta pela multidão. Benakov virou-se também, e o caimento de seus mantos revelou a Tanek uma pequena saliência em forma de bolsa pendurada em seu quadril direito.

Havia uma tábua solta na rua a poucos metros de Tanek. Ele pegou a tábua, alcançou a navalha pelo buraco no bolso e a escondeu na palma da mão. Ele virou-se para avaliar o beco atrás dele. Se bem se lembrava, havia duas curvas fechadas e depois um beco sem saída. A parede lá seria difícil de escalar, mas não impossível. Ele voltou-se para a rua, esperando o momento de atacar.

No momento em que Benakov estava prestes a passar na sua frente, Tanek jogou a tábua no caminho. O homem gordo tropeçou, caindo de cara no chão. Tanek saltou sobre ele em um instante, cortando o lado direito do manto do homem e o cordão que prendia sua bolsa de moedas. Benakov gritou. Tanek agarrou a bolsa e correu para o beco, mas vislumbrou um flash de branco e vermelho atrás dele. Ao dobrar a primeira esquina, ouviu passos se aproximando. Correu o mais rápido que suas pernas podiam aguentar. Conseguiu enfiar a bolsa no bolso esquerdo antes de chegar à segunda esquina, mas quase tropeçou em um balde de água ao dobrá-la.

A parede dos fundos do beco tinha seis metros de altura, e havia menos apoios para as mãos na pedra preta e cinza do que ele se lembrava. Ele deixou cair a navalha e começou a escalar. Os passos atrás dele continuavam vindo. Um balde de água bateu na parede acima dele, encharcando-o e à pedra lisa. Ele tentou continuar escalando, não encontrou apoio e caiu de costas. Em um instante, o salto da bota do homem estava em seu pescoço, seguido pela ponta de sua espada.

Arte de Eric Deschamps
Arte de Eric Deschamps

O homem desdenhou. "O dinheiro."

Os olhos de Tanek se arregalaram. "Eu... não estou com ele."

A ponta da espada pressionou o pescoço de Tanek apenas o suficiente para tirar sangue. "O dinheiro."

"Tudo bem, tudo bem." Ele enfiou a mão no bolso e entregou a bolsa.

A pressão no pescoço de Tanek diminuiu e o rosto do homem relaxou. "Por que fez isso?"

"Aquele monte de gente ameaçou meus amigos."

"Seus amigos?"

"Busa, o vendedor de frango. E outros também. Aqueles capangas que você estava observando são homens de Ambroz Benakov. Você pode estar observando agora, mas não vai impedi-los quando eles voltarem no escuro. Eles são maus. Torturam você e cortam os dedos dos pés dos seus filhos. Qualquer coisa para conseguir seu dinheiro."

O legionário Boros sacudiu a bolsa de moedas. "E você achou que pegar isso iria impedi-lo?"

Tanek pensou. "Eu... eu não sei. Eu não pensei—"

"Dá para notar." O legionário guardou a bolsa no bolso e tirou o pé do pescoço de Tanek, mas manteve a espada em sua garganta. "O que mais você sabe?"

"Benakov não apareceu até algumas semanas atrás. Ninguém o pagava até que a esposa do vendedor de doces desaparecesse, e todos passaram a pagar desde então. Ele acabou de dobrar a taxa de proteção hoje. Entre eles, e agora você, as coisas estão perigosas demais."

O homem embainhou a espada e quase sorriu. "Eu normalmente não gosto de parasitas, mas você não é tão ruim." Ele estendeu uma mão. Tanek a agarrou e o homem o puxou para cima. "Sou Radomir da Legião Boros. É uma pena que você não seja um escalador tão bom, mas pelo menos recuperei o dinheiro."

Tanek piscou. O homem Boros sorriu. "Você sabe escrever?" Tanek assentiu. "Se descobrir mais alguma coisa, deixe um bilhete no vaso vazio no telhado da forja dos goblins. Eu pago bem, e preferiria não ver alguém cujo coração poderia estar no lugar certo roubando de seus 'amigos'."

Radomir girou sobre os calcanhares e começou a se afastar. Tanek deu um passo atrás dele. "Você vai me pagar por hoje?"

"Oh. Bem lembrado." Radomir tirou a bolsa do bolso, pegou duas moedas e as jogou de volta para Tanek; as moedas tilintaram no chão entre eles. "Suponho que a maior parte do dinheiro terá que ser boa o suficiente."

Tanek correu para pegá-las. Eram ambas peças de dez zinos, de cunhagem Orzhov, com bordas serrilhadas impecáveis ainda intactas. Seus olhos se arregalaram. Quando pensou em agradecer ao homem, Radomir já havia partido.

Moeda Conjurada | Arte de Steve Argyle
Moeda Conjurada | Arte de Steve Argyle

Vinte zinos. Não era uma fortuna, mas o suficiente para viver confortavelmente por uma ou duas semanas. Talvez o suficiente para uma camisa nova também. Tanek colocou as moedas no bolso, recuperou a navalha, escalou uma parede diferente e foi de telhado em telhado até estar longe o suficiente do mercado para que descer ao nível da rua fosse seguro. De lá, ele voltou para os dois arbustos, rastejou pelo buraco na parede e subiu para o telhado.

Erika e Migen já estavam de volta. "Oi Tanek", Migen cantarolou.

"Você está molhado. Aquele cara te pegou?", Erika perguntou.

Tanek pensou por um momento. "Não, mas eu deixei o dinheiro cair."

"Ah. Nós nos saímos muito bem hoje!", disse Migen.

"É incrível o que se pode tirar das pessoas quando elas estão distraídas com uma garotinha triste", disse Erika com um brilho nos olhos.

De quem elas haviam roubado? Tomara que não de Busa. Tanek já havia roubado de Busa antes, mas isso fora há muito tempo. Ele conseguiria fazer isso de novo? Não tinha certeza.

"Preciso ir. Vejo vocês depois." Tanek virou-se.

"Tudo bem", disseram em uníssono. Ele desceu do telhado. Não os veria novamente por um tempo. Definitivamente não hoje, pelo menos. Precisava de um telhado diferente. Um com mais espaço para pensar. E, com sorte, um mais perto da forja dos goblins.